Iohana Emanuely da Silva Nardi
Introdução
Com o surgimento da fotografia, consolidou-se a ideia de que “a câmera não mente” e que tudo que é capturado por ela representa um retrato fiel da realidade. Diferentemente da pintura, a fotografia seria uma ferramenta objetiva, resultado de um processo químico e físico desenvolvido ao longo do século xix, que não dependeria de interpretação subjetiva. No entanto, desde seus primórdios, a fotografia sempre pôde ser modificada, os negativos podiam ser retocados, alterados ou manipulados com objetivos estéticos, simbólicos ou ideológicos.
Ao longo do século XIX e início do século XX, período marcado por intensas transformações sociais, científicas e culturais, essas intervenções não ocorreram de maneira neutra. Pelo contrário, elas dialogavam diretamente com valores profundamente enraizados, como as hierarquias sociais, os ideais de progresso e, sobretudo, as teorias raciais que ganhavam força no contexto do racismo científico. Nesse cenário, a manipulação fotográfica também passou a operar como instrumento de reforço dessas estruturas, contribuindo para a construção e a naturalização de desigualdades, especialmente por meio de práticas como o branqueamento de indivíduos negros em retratos.
A história da fotografia
O que conhecemos como câmera fotográfica tem seu início na câmara escura, um dispositivo que consiste em uma caixa com um orifício que captura a luz, projetando uma imagem invertida na parede oposta, isso ocorre devido ao fato de a luz percorrer um trajeto em linha reta, sendo o primeiro registro desse conhecimento documentado aproximadamente em 470 a.C., pelo filósofo chinês Mozi. Em paralelo
com o desenvolvimento da câmara escura, em 1604, o cientista Angelo Sala descobriu que sais de prata escurecem ao serem expostos ao calor, conhecimento aprofundado por Johann Heinrich Schulze em 1727, ao demonstrar que a luz solar e não o calor escureciam os sais.
A fotografia tem suas origens em experimentos e descobertas realizadas ao longo do tempo em diversas partes do mundo. Desde os estudos de Mozi, Aristóteles, Alhazen, Leonardo da Vinci, Giambattista della Porta, Daniele Barbaro, e Johannes Kepler que contribuíram para o desenvolvimento do estudo da óptica, até as investigações de Angelo Sala, Johann Heinrich Schulze, Thomas Wedgwood e Carl Wilhelm Scheele, que exploraram o escurecimento de sais de prata e outros processos relacionados. Esses conhecimentos culminaram em 1826, quando Joseph Nicéphore Niépce realizou a primeira fotografia permanente, ao descobrir como fixar as imagens capturadas pela câmera escura em uma placa de estanho revestida com betume da Judéia, exposta por oito horas à luz solar.

Niépce estabeleceu uma parceria com Louis Jacques Mandé Daguerre, e apesar de sua morte em 1833, Daguerre deu continuidade aos seus experimentos. Em 1839, ele apresentou à Academia de Ciências de Paris o “daguerreótipo”, uma caixa com uma placa revestida de iodeto de prata, que era exposta ao vapor de mercúrio e corrigida com uma solução de sal comum. Apesar de apresentar algumas dificuldades, como seu peso e o longo tempo de exposição necessário para fixar a imagem, a invenção despertou grande entusiasmo no governo francês, que adquiriu seus direitos e disponibilizou a tecnologia de forma gratuita como um “presente livre para o mundo”.
Após a apresentação do “daguerreótipo”, Louis Daguerre em parceria com Alphonse Giroux, desenvolveu a primeira câmera fotográfica comercial, porém, a tecnologia era restrita a fotógrafos profissionais devido ao alto custo e às dificuldades no manuseio do processo.
No mesmo ano, o cientista William Henry Fox Talbot desenvolveu outro processo para a criação de imagens em papel, denominado “calótipo”. Esse foi o primeiro método a utilizar impressões negativas, invertendo a fotografia, ou seja, onde a imagem é escura, na impressão aparece clara, e vice-versa. Talbot trouxe uma verdadeira revolução, pois até então as imagens eram únicas e não podiam ser reproduzidas. Com sua descoberta, a fotografia pôde ser replicada infinitamente e alterada conforme desejado.
Em 1851, a técnica conhecida como colódio úmido, que foi desenvolvida por Frederick Scott Archer, substituiu o calótipo por ser feita em menos tempo e com mais nitidez, porém ainda havia dificuldades de locomoção devido aos processos químicos que precisavam ser realizados imediatamente antes e depois da fotografia, que precisava ser revelada imediatamente após a foto, tornando a fotografia um procedimento fixo. Nos anos seguintes Richard Leach Maddox desenvolveu a técnica de chapa seca com emulsão seca de gelatina e brometo de prata, uma técnica que produzia imagens ainda mais nítidas e reduzia o tempo de exposição em relação às técnicas anteriores, além de permitir que as fotos fossem reveladas quando o fotógrafo desejasse.
A última grande revolução na história da fotografia no século XIX, ocorreu com o acesso à fotografia por parte da população em geral. Em 1884, George Eastman criou uma película flexível em rolo de celulose, muito mais prática e fácil de transportar do que as películas de vidro. Quatro anos depois, Eastman fundou a empresa Kodak, que, em setembro do mesmo ano, lançou a primeira câmera acessível ao público geral, emf ormato de caixa e facilmente transportável, com o slogan “Você aperta o botão, nós fazemos o resto”. Essa câmera vinha previamente carregada com películas em rolo, e o cliente precisava enviá-la de volta à fábrica para a revelação, marcando o início de uma nova era da fotografia.
Recepção e Retoque
A fotografia causou um grande alvoroço após sua revelação ao mundo, principalmente entre a classe artística, pintores e desenhistas receberam a invenção com muito pessimismo, pois acreditavam estarem se deparando com o fim da arte. Acreditava-se que o mundo artístico estava sendo consumido pelas máquinas, que a reprodução espelhada das câmeras destruiria qualquer representação artística pessoal. Apesar desta perspectiva catastrófica não ter se concretizado, a fotografia de fato impactou o campo da pintura, contribuindo com o surgimento do movimento impressionista, e levando à diminuição da demanda por retratos, que passaram a ser realizados quase que exclusivamente por fotógrafos.
Assim, o mecanismo que nos oferecer um resultado idêntico à natureza será a arte absoluta”. Um Deus vingador acolheu as súplicas desta multidão. Daguerre foi seu Messias. E então ela diz a si mesma: “Visto que a fotografia nos dá todas as garantias desejáveis de exatidão (eles crêem nisso, os insensatos), a arte é a fotografia”. A partir desse momento, a sociedade imunda se lança, como um único Narciso, à contemplação de sua imagem trivial sobre o metal. (BAUDELAIRE, 1859).
O público geral recebeu a nova invenção com espanto e admiração, as pessoas ficaram impressionadas com a exatidão dos detalhes que reproduziam exatamente como um reflexo no espelho, o espelho em si também estava se desenvolvendo durante o século XIX e era de acesso quase exclusivo das classes mais altas, ou seja, ver o próprio reflexo era algo raro na época, o que contribuiu para que certas culturas olhassem com desconfiança para a fotografia, acreditando que a câmera poderia captar a essência vital de uma pessoa.
Apesar das desconfianças iniciais a fotografia se popularizou rapidamente porque se desenvolveu muito em pouco tempo, tornando-se mais acessível do que a pintura. E a partir de então, a classe média que com muita dificuldade tentava alcançar o privilégio da pintura viu outra possibilidade com a fotografia, e através de retratos procuravam afirmar seu status social e se imortalizar em imagem. Os retratos eram tão importantes no período que passaram a fazer parte dos cartões de visita, que eram uma patente desenvolvida por André Adolphe Eugène Disdéri, que em 1854 desenvolveu uma técnica de colar uma fotografia por cima de um cartão com o nome e endereço da pessoa, ou seja, as imagens passaram a fazer parte do cotidiano e eram constantemente trocadas socialmente.
O retoque do negativo era uma técnica manual com o uso de lápis, que era usado sobre o negativo previamente preparado com um líquido chamado “retouching dope” ou um verniz de retoque que amolece o negativo para que possa ser manipulado. No livro “Complete Self-Instructing Library of Practical Photography X” de J. B. Schriever, o “retouching dope” era uma solução de terebentina, goma de damar e óleo essencial de lavanda e o verniz de retoque é um preparado de goma mástique e éter, o “retouching dope” era aplicado apenas na área a ser tratada pelo retocador e o verniz de retoque em todo o negativo.
O trabalho era realizado em mesas de retoque que iluminavam o negativo por trás, o retocador usava o lápis para preencher áreas escuras como manchas e olheiras, e como o negativo inverte as cores, escurecer uma área com grafite fazia com que ela ficasse mais clara na impressão final. Havia também a técnica de raspagem com lâminas afiadas em que o retocador raspava uma região com negativo se quisesse diminuir uma área, podia ser utilizado para diminuir a cintura de mulheres.

Além das finalidades estéticas e de afirmação social, havia espaço para o entretenimento por meio de fotografias divertidas e macabras, como as decapitações fotográficas, nas quais as pessoas apareciam segurando suas próprias cabeças, e as imagens de espíritos. Para criar as decapitações, os fotógrafos utilizavam impressões combinadas ou máscaras físicas dentro da câmera, fundindo diferentes exposições em um único negativo, o que exigia um trabalho minucioso de retoque e gravação para camuflar as emendas, feitas com grafite e estiletes. Já as aparições de fantasmas eram produzidas por meio de dupla exposição, utilizando uma placa previamente utilizada, na qual uma pessoa já havia sido fotografada, dessa forma a figura da pessoa aparecia de forma mais difusa, criando uma impressão fantasmagórica.
Branqueamento Fotográfico
Porém, a fotografia não deve ser vista de forma isolada, mas compreendida em relação as estruturas sociais de seu tempo. Se por um lado a câmera era usada para imortalizar a classe média e criar retratos artísticos, por outro, ela foi rapidamente convertida em uma ferramenta de “comprovação” das teorias de desigualdade racial. A ideia de que a ciência poderia explicar as diferenças humanas através da biologia encontrou na fotografia o suporte visual perfeito para as teorias de pensadores racistas como Arthur de Gobineau e Herbert Spencer.
Durante o século XIX, apesar do sistema escravista estar terminando em vários países, o racismo científico e o imperialismo estavam em seu auge, pseudocientistas utilizavam a câmera para catalogar tipos humanos, buscando “evidências” físicas que justificassem a suposta superioridade da raça branca em relação a negros, indígenas e asiáticos. Ao contrário do retrato burguês, que focava na individualidade e no status, a fotografia científica do século XIX desumanizava povos e culturas, transformando pessoas em “espécimes” para análise de características cranianas e faciais.
Além disso, a própria lógica dos retratos do período reforçava essas distinções. Em muitos casos, pessoas negras eram retratadas em posições subalternas ou classificadas como “tipos raciais”, enquanto indivíduos brancos eram apresentados como sujeitos de identidade, status e individualidade. Assim, a fotografia além de refletir as desigualdades raciais, também ajudava a naturalizá-las e disseminá-las por meio de imagens aparentemente objetivas.
O conceito de brancura no século XIX foi estabelecido não apenas como uma cor de pele, mas como um padrão de civilidade, higiene e moralidade. Esse padrão refletiu se diretamente nas técnicas de captura e revelação, pessoas negras que se destacavam socialmente passavam a ser descritas e representadas como brancas como uma forma de elevação social. Muitas figuras históricas negras foram embranquecidas como Machado de Assis, Chiquinha Gonzaga, Maria Firmina dos Reis, Nilo Peçanha e Maria Bueno.
O avanço da fotografia ocorreu em paralelo à prevalência do racismo e a uma visão excludente da população negra, embora houvesse progresso tecnológico, esses avanços não foram acompanhados por reparações históricas. Descendentes de pessoas escravizadas herdaram não apenas traumas, mas também as consequências de um sistema que marginalizou e desumanizou seus antepassados. Assim, a evolução da técnica fotográfica, em muitos casos, foi utilizada para perpetuar visões preconceituosas, sem que houvesse um esforço correspondente para enfrentar ou corrigir as injustiças históricas. (SOARES, 2024).
Outra figura histórica que passou por um processo de embranquecimento foi Zacarias Alves Pereira, uma figura muito proeminente em São José dos Pinhais. Nascido escravizado em 1861, ele desempenhou diversas funções ao longo de sua vida sendo autodidata, também era artista e desenvolveu o primeiro brasão da cidade. Durante sua trajetória, passou a ser representado como branco em fotografias e pinturas e após sua morte, em 1942, continuou sendo uma referência na cidade, frequentemente mencionado em colunas sociais de jornais locais, que nunca fizeram menção à sua condição de escravizado na juventude. Isso evidencia que o branqueamento não se limita à imagem, mas também pode ocorrer por meio da omissão de história e/ou raça de um indivíduo.


Apesar disso, não se tem conhecimento da existência de um manual técnico específico que ensinasse de forma sistemática o branqueamento de pessoas negras na fotografia. Ainda assim, a análise das práticas fotográficas do período permite compreender que esse efeito era alcançado por meio da adaptação de técnicas já consolidadas. Fotógrafos e retocadores, influenciados pelos padrões estéticos e raciais vigentes, provavelmente utilizavam recursos como iluminação excessiva, manipulação dos negativos e intervenções manuais nas cópias para aproximar a aparência dos retratados de um ideal de pele mais clara.
Conclusão
Em síntese, a trajetória da fotografia mostrou-se desde cedo um campo de intervenção e manipulação. O retoque de negativos, que surgiu como uma solução para as limitações técnicas rapidamente se consolidou como instrumento de construção social, ou seja, a fotografia nunca foi neutra, mas profundamente marcada pelos valores de seu tempo. Nesse contexto, a fotografia não era um reflexo da realidade, mas um meio de moldá-la, ajustando corpos, alterando traços e reforçando padrões estéticos e hierarquias da época.
Assim, ao analisar as técnicas de retoque e seus usos, torna-se possível questionar a própria natureza da fotografia enquanto documento histórico. Longe de ser uma prova incontestável, a imagem fotográfica deve ser lida de forma crítica, considerando os interesses, os contextos e as intervenções que a moldaram. Compreender essas dinâmicas não apenas amplia o entendimento sobre a história da fotografia, mas também permite refletir sobre como as imagens continuam, ainda hoje, a participar da construção de narrativas, identidades e desigualdades sociais.
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