• Patrimônio arqueológico pré-colonial: tradições Umbu e Itararé-Taquara

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Por: Damiana Cruz e Marisol Tkacz

1.1. As pontas de projetil: Tradição Umbu

Em território paranaense as ocupações humanas mais remotas, já datada, são de aproximadamente 15.000 anos atrás, sendo associadas aos grupos denominados caçadores-coletores.1 Com as mudanças climáticas, novos povos caçadores-coletores passaram a habitar a região parananense por volta de 10.000 anos atrás. Estudos arqueológicos acerca desses grupos apontam que eram nômades, ou seja, viviam migrando de uma região para outra a fim de garantir a sua subsistência e ocupavam áreas a céu aberto, com abrigos em formações naturais, como abrigos sob-rochas. Alguns desses grupos também eram portadores de uma tecnologia de lascamento de artefatos de pequeno porte, principalmente pontas de projetil bifaciais, sendo associados a Tradição Umbu.

Através de levantamentos feitos pelo Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (PRONAPA), desde 1960, a Tradição Umbu2 foi caracterizada pela “variedade de pontas de projetil triangulares, bifaciais, pedunculada e não pedunculada, alguns deles com borda serrilhada, e outros, com retoque unifaciais, geralmente associados a bolas3 e sem a presença da tecnologia cerâmica.

A Tradição Umbu está associada a regiões de clima subtropical, abrangendo o espaço geográfico dos estados brasileiros do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo, além do Uruguai e as províncias argentinas de Missiones e Corrientes, o que demonstra uma grande dispersão espacial da Tradição e também cronológica, sendo o início da ocupação identificado no período de transição do Pleistoceno-Holoceno.4

Uma característica importante das pontas bifaciais é a grande diversidade de tamanhos e formatos. Essa variedade pode estar relacionada ao tempo de produção, função de utilização, tecnologia aplicada, fatores demográficos e culturais.

Contudo, devido essa amplitude temporal e espacial da Tradição Umbu, muitas lacunas ainda estão presentes nos estudos arqueológicos. Para muitos autores: “a diferenciação morfológica entre as pontas de projétil deve se dar a partir de uma coleta sistemática de dados…5, assim, faz-se necessário o uso adequado de mecanismos teórico-metodológicos aplicados de maneira adequada nas análises dos materiais líticos e sítios arqueológicos, não sendo apenas a presença/ausência de pontas bifaciais um definidor para a classificação da Tradição Umbu. Ainda, segundo críticos, mesmo com o destaque das pontas de projétil como objeto diagnóstico da Tradição Umbu, outros elementos também são representativos como raspadores, facas e goivas, apresentando também esses uma padronização tecnológica assim como as pontas de projétil.6

Em São José dos Pinhais, sítios arqueológicos associados à Tradição Umbu foram encontrados na região do Rio Iguaçu, Miringuava e na região do hoje bairro Rio Pequeno.7

1.2. Tradição Itararé-Taquara e as fontes cerâmicas

Segundo Araújo, desde meados do século XX pesquisadores perceberam a ocorrência, em amplas regiões do Brasil meridional e nordeste da Argentina, de vestígios arqueológicos acerca de vasilhames de cerâmica pequenos, com paredes finas e coloração escura.8

No Paraná, são encontrados vestígios que datam há cerca de 4.000 anos atrás (quando o clima tornou-se mais quente e úmido e ocorreu a expansão das florestas de araucárias) de grupos horticultores e ceramistas. Para Parellada, o início da prática agrícola pode ter colaborado para o crescimento populacional e a ocupação de novos espaços, pois, com o aumento da densidade demográfica os territórios para coleta de frutos e grãos, caça e extração de matéria-prima, precisam ser delimitados, no intuito de garantir a sobrevivência. A partir dessa estabilidade ocupacional, estudos arqueológicos associam o afloramento da produção cerâmica.9

As evidências arqueológicas colocam a Tradição Itararé-Taquara como emissária de uma das principais ocorrências cerâmicas da região. A Tradição Itararé-Taquara é característica das “Terras Altas Sul-brasileiras, cujas populações são relacionadas à família linguística Jê10. Sua ocupação abrange planaltos cobertos por campos e florestas subtropicais com araucárias.

A cerâmica Itararé-Taquara caracteriza-se pelo pequeno volume, paredes de espessura finas e predominando a cor marrom escura a avermelhada:

Pouca espessura, possuindo antiplásticos feldspato e quartzo, com grãos de até 6 mm de comprimento máximo, cerâmica moída, e raros grãos arredondados de hematita. (…) as bases são planas, côncavas e convexas e as formas cilíndricas, semi-esféricas globulares e ovais.11

Parellada ainda destaca, que além da cerâmica, é muito provável que parte das pinturas rupestres achadas no Paraná, estejam relacionadas à Tradição Itararé-Taquara.12

É relevante apontar que as cerâmicas encontradas em sítios escavados, ou seja, as fontes arqueológicas que temos acesso, passaram por variações em suas estruturas e aparência, devido aos processos químicos e físicos que foram submetidas, sendo os mais comuns: erosão, abrasão, uso, percolação de água, bactérias e ácidos.13

1.3. As fontes arqueológicas e o acervo do Museu Municipal Atílio Rocco

As fontes históricas se fundam no material dos quais os historiadores se apropriam através de recortes temporais e espaciais, técnicas e metodologias específicas para a produção da narrativa histórica. São exemplos de fontes históricas: livros, documentos oficiais, periódicos, cartas, mapas, pinturas, filmes, fotografias, depoimentos orais, entre tantas outras.

Além dos materiais citados, há também as fontes estudadas pela Arqueologia, que são: cerâmica, pedras lascadas e polidas, urnas funerárias, pinturas rupestres, objetos de caça e toda uma gama de vestígios do passado.

As fontes arqueológicas são fragmentos que apresentam, a partir da aplicação de metodologia adequada para análise, indícios de grupos humanos que viveram no passado. Por meio do estudo dessas fontes, podemos observar o cotidiano, tecnologia, modo de vida, ocupação, entre outros aspectos de grupos culturais que, em outras épocas, habitavam determinados territórios: “por exemplo analisando as cerâmicas deixadas pelos homens do passado em seus acampamentos, podemos entender quais conhecimentos eles tinham de natureza, quais caminhos fizeram, por onde andaram…”.14

Assim sendo, as fontes arqueológicas podem ser uma oportunidade de conhecimento das ações e imaginário das antigas sociedades, tal como, uma maneira de preservar a memória de grupos culturais. Nessa perspectiva, irrompe a importância da Arqueologia, como ciência que possibilita métodos e estratégias de pesquisa para analisarmos esses vestígios do passado.15

No acervo do Museu Municipal Atílio Rocco estão presentes pontas de flechas, ferramentas em pedra, adornos, cerâmicas, arcos e lanças, de períodos cronológicos e geográficos diferentes. Porém, estudos arqueológicos mais detalhados ainda não foram feitos acerca desse acervo, identificando-o e datando-o, o que impossibilita a classificação das peças, sendo ainda, um campo aberto para investigação e novas pesquisas das tradições indígenas em nossa região.

Jornal Tribuna de São José. São José dos Pinhais, 5/12/1996. Capa
Jornal Tribuna de São José. São José dos Pinhais, 5/12/1996. Pg.1
Jornal Tribuna de São José. São José dos Pinhais, 05/12/1996. Pg.7
Jornal Tribuna de São José. São José dos Pinhais, 11/12/1996. Pg. 1
Jornal Tribuna de São José. São José dos Pinhais, 11/12/1996. Pg. 7
Fragmentos cerâmicos provenientes de distintos vasilhames feitos com argila.
Fragmentos cerâmicos provenientes de distintos vasilhames feitos com argila. INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). RELATORIO DO PROGRAMA DE RESGATE ARQUEOLÓGICO E EDUCAÇÃO PATRIMONIAL DA ÁREA DE ALAGAMENTO DO RIO MIRINGUAVA – SÃO JOSÉ DOS PINHAIS SÍTIOS PAPANDUVA, BARRO PRETO E MURICI. Pg. 276

NOTAS:

1PARELLADA, Cláudia Inês. Coleções Arqueológicas no Museu Paranaense: Trajetórias e Memórias. Revista Memorare, v. 2, n. 1, p. 72-92, 2014.

2Nesse projeto utilização o conceito de Tradição como “uma unidade ou uma série de unidades arqueológicas básicas… relacionadas entre si, que são socialmente transmissíveis e persistentes no tempo”. ENDRES, Raqquel Neglia. A utilização de tecnologias 3D em análise de pontas de projétil da tradição Umbu: uma proposta exploratória. 2014.

3ENDRES, Raqquel Neglia. A utilização de tecnologias 3D em análise de pontas de projétil da tradição Umbu: uma proposta exploratória. 2014.

4Idem, p. 12.

5Idem, p. 18.

6BARTH, Marina Amanda. A tradição Umbu no Vale do Rio Pardo. 2019.

7SGANZERLA, Eliane Maria et al. A arqueologia do Contorno Leste de Curitiba. Arqueologia, v. 7, n. 1, p. 1, 1996.

8ARAUJO, Astolfo Gomes M.. A tradição cerâmica Itararé-Taquara: características, área de ocorrência e algumas hipóteses sobre a expansão dos grupos Jê no sudeste do Brasil. Revista de Arqueologia, v. 20, n. 1, p. 09-38, 2007.

9PARELLADA, Cláudia Inês. Coleções Arqueológicas no Museu Paranaense: Trajetórias e Memórias. Revista Memorare, v. 2, n. 1, p. 72-92, 2014.

10ARAUJO, Astolfo Gomes M. A tradição cerâmica Itararé-Taquara: características, área de ocorrência e algumas hipóteses sobre a expansão dos grupos Jê no sudeste do Brasil. Revista de Arqueologia, v. 20, n. 1, p. 09-38, 2007. p. 10.

11PARELLADA, Cláudia Inês. Coleções Arqueológicas no Museu Paranaense: Trajetórias e Memórias. Revista Memorare, v. 2, n. 1, p. 72-92, 2014. p 88.

12Idem, p. 76.

13Idem.

14MARINHO, Marcos R. S. O Conceito de Fontes Históricas: os usos de fontes arqueológicas na construção da História do Amazonas. Seminário da prática VII, UNIASSELVI, 2018. p. 4.

15Idem, p. 6.

BIBLIOGRAFIA

ARAUJO, Astolfo Gomes M.. A tradição cerâmica Itararé-Taquara: características, área de ocorrência e algumas hipóteses sobre a expansão dos grupos Jê no sudeste do Brasil. Revista de Arqueologia, v. 20, n. 1, p. 09-38, 2007.

BARTH, Marina Amanda. A tradição Umbu no Vale do Rio Pardo. 2019.

ENDRES, Raqquel Neglia. A utilização de tecnologias 3D em análise de pontas de projétil da tradição Umbu: uma proposta exploratória. 2014.

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). RELATORIO DO PROGRAMA DE RESGATE ARQUEOLÓGICO E EDUCAÇÃO PATRIMONIAL DA ÁREA DE ALAGAMENTO DO RIO MIRINGUAVA – SÃO JOSÉ DOS PINHAIS SÍTIOS PAPANDUVA, BARRO PRETO E MURICI.

MARINHO, Marcos R. S. O Conceito de Fontes Históricas: os usos de fontes arqueológicas na construção da História do Amazonas. Seminário da prática VII, UNIASSELVI, 2018.

OKUMURA, Mercedes; ARAUJO, Astolfo GM. Desconstruindo o que nunca foi construído: Pontas bifaciais ‘Umbu’ do Sul e Sudeste do Brasil. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, v. 20, p. 77-82, 2015.

PARELLADA, Cláudia Inês. Coleções Arqueológicas no Museu Paranaense: Trajetórias e Memórias. Revista Memorare, v. 2, n. 1, p. 72-92, 2014.

ROCHA, Luiz Carlos Medeiros. As Pedras na História”: O uso de fontes arqueológicas “pré-históricas” para a historiografia. História Unicap, v. 2, n. 3, p. 64-78, 2015.

SGANZERLA, Eliane Maria et al. A arqueologia do Contorno Leste de Curitiba. Arqueologia, v. 7, n. 1, p. 1, 1996.