Franciele Sabchuk1
Luciano Chinda Doarte2
Resumo: O projeto Tem Estudante no MUMAR, desenvolvido pelas Secretarias Municipais de Educação e de Cultura de São José dos Pinhais a partir de 2022, teve como objetivo promover visitas técnicas ao Museu Municipal Atílio Rocco (MUMAR) com estudantes da rede municipal de ensino. Alinhado ao Referencial Curricular do município, o projeto buscou articular o ensino de História à vivência em espaços de memória, fortalecendo o protagonismo estudantil e o contato com fontes históricas locais. Estruturado em etapas anuais, o projeto envolveu formação docente, planejamento pedagógico e acompanhamento técnico. Os resultados apontam impactos positivos na aprendizagem e no engajamento dos estudantes, bem como no fortalecimento da relação entre escola, museu e território. A experiência reforça o potencial das ações extraclasse para a educação histórica e a valorização do patrimônio cultural.
Palavras-chave: ensino de História; museu; educação patrimonial; atividades extraclasse.
1. Introdução:
A partir de 2022, com a flexibilização dos protocolos sanitários pós-pandemia, as Secretarias Municipais de Educação (SEMED) e de Cultura (SEMUC) de São José dos Pinhais organizaram o projeto Tem Estudante no MUMAR. A proposta surgiu da necessidade de retomar ações educativas presenciais, entre elas, as visitas técnicas de estudantes ao Museu Municipal Atílio Rocco (MUMAR), considerando sua relevância como espaço de memória e patrimônio cultural da cidade.
O Projeto atendeu, inicialmente, em 2022, os estudantes do 3º ano do Ensino Fundamental, da rede municipal. Conforme o Referencial Curricular de São José dos Pinhais (2020) prevê o estudo do bairro e do município como eixo espacial para essa etapa escolar. Dessa forma, buscou-se proporcionar aos alunos experiências concretas relacionadas ao ensino de História, a partir do contato direto com fontes e narrativas históricas locais.
Nos anos seguintes, o público-alvo e a abordagem das atividades foram sendo ajustados, com o objetivo de ampliar o alcance do projeto para outras etapas e modalidades de ensino. Ainda assim, manteve-se o compromisso com os objetivos de aprendizagem do componente curricular de História, bem como com a missão e a proposta educativa do MUMAR.
Em 2023, o projeto atendeu estudantes dos 5º anos, com foco nos objetivos de aprendizagem relacionados às fontes históricas, ao ofício do historiador e aos patrimônios históricos e culturais. Já em 2024, participaram os estudantes dos 4º anos, cujo enfoque principal esteve na articulação entre os aspectos históricos locais, regionais e nacionais, na identificação e contextualização de marcos de memória, e na reflexão sobre os sujeitos históricos representados (ou não) nos espaços públicos e nas narrativas oficiais.
2. Fundamentação e Justificativa:
O currículo municipal orienta que os estudantes sejam protagonistas no processo educativo, desenvolvendo uma postura investigativa diante das fontes e das temáticas históricas. Entre as estratégias metodológicas previstas, destacam-se as aulas de campo em espaços históricos formais e informais, como museus, monumentos e arquivos (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 2020).
Ao oportunizar aos estudantes uma visita monitorada ao MUMAR, buscou-se ampliar seu repertório cultural e histórico, estimulando a percepção das relações entre passado, presente e futuro. A atividade também possibilitou a aproximação com múltiplas tipologias de fontes históricas, promovendo o pensamento crítico e a construção de sentidos históricos vinculados à cidade e à coletividade.
Ainda, há dois tópicos importantes na proposta dessas atividades. Em primeiro lugar, os museus, desde seu desenho moderno eurocentrado, possuem ativamente uma função social educativa. Quando os museus realizam suas exposições, que é seu modo mais típico de comunicação com o mundo, também articulam a intenção de que os saberes científicos ali demonstrados cheguem às diferentes pessoas que por ali circulam. É aí que serviços educativos são tão centrais na vida dos museus há tanto tempo, para buscar difundir e encontrar diálogo do museu no seio social.
Em segundo lugar, no caso do Museu Municipal Atílio Rocco, seu Regulamento (2010) deixa evidente essa obrigação quando diz, no rol de seus objetivos: “IV – desenvolver e incentivar a realização de programas de comunicação com a sociedade através de atividades culturais e educativas, dotadas de sentido didático junto às instituições educacionais da região”. Ou seja, é incontornável o fazer educativo. Sendo assim junto da educação municipal, então, o escopo ganha ainda mais corpo e estratégias viáveis de ação.
3. Metodologia e Desenvolvimento:
O projeto foi estruturado em etapas, com cronograma de atuação anual, prevendo a execução de ações articuladas entre os setores envolvidos. Em fevereiro, foram abertas inscrições para professores regentes, com 60 vagas distribuídas entre os turnos. Em março, os professores participaram de uma formação virtual, na qual foram apresentados os objetivos do projeto, os protocolos logísticos (como autorizações de uso de imagem, direitos autorais, de lanche diferenciado e transporte adaptado se for o caso), os trâmites administrativos e as orientações pedagógicas para a realização das visitas técnicas.
As visitas ocorreram semanalmente entre março e novembro, com exceção de julho. Cada turma contou com transporte garantido pela SEMED e acompanhamento de monitores do museu. A atividade foi organizada para garantir o caráter formativo e não apenas recreativo, exigindo planejamento didático prévio e avaliação posterior. O projeto totalizou 12 horas de atividades certificadas para os docentes participantes.
4. Resultados e Discussão:
As devolutivas dos professores e estudantes evidenciaram o impacto positivo do projeto. Os docentes destacaram a importância da atividade para a compreensão de conteúdos trabalhados em sala de aula e a relevância da vivência prática em espaços de memória. Relatos também evidenciaram a valorização da história local e o encantamento dos estudantes diante de exposições como a maquete da cidade, objetos antigos e imagens fotográficas.
As manifestações dos estudantes foram registradas por meio de desenhos, falas e produções em sala de aula, que revelaram o envolvimento emocional e cognitivo com a experiência. Termos como “soldados”, “perfume”, “dinheiro”, “dentista” e “corrida” foram recorrentes, demonstrando a diversidade de interesses e aprendizados despertados pela visita.
Para a equipe técnica do MUMAR, o projeto também se configurou como uma oportunidade valiosa de aproximação com o público escolar, além de representar um espaço de reflexão e aprimoramento das práticas educativas desenvolvidas pela instituição.
Cabe também registrar que desde o corpo técnico do Museu Municipal Atílio Rocco, percepções após as visitas foram enriquecedoras para os horizontes de atuação da entidade. Em primeiro caso, acerca do gosto. Uma vez que a elaboração do “gostar” ou do “não gostar” é profundamente complexa, a partir dos diálogos durante as visitas, foi cada vez mais fácil mapear a relação público estudantil-exposições, encontrando convergências e dissonâncias.
Pelas visitas também foi possível perceber, na lógica do “espanto” e da “surpresa”, o contato com o exótico em sentido doméstico, o que autorizou a equipe museológica a pensar como, quando, quem e por meio de que modos cada turma e, quando possível, cada estudante reagiu aos conteúdos apresentados a partir de um funcionamento entre o familiar e o desviante.
Por fim, as visitas oportunizaram perceber lacunas sensíveis na educação contemporânea, em especial sobre a temática racial. Por três vezes, ao menos, equipe conseguiu notar ativamente a resistência de algumas crianças às temáticas afro-brasileiras, taxando-as, inclusive, como “o mal” ou “o errado”. Em geral, isso se deu com base em conteúdos conservadores e de cunho moralista que foram incutidos no entendimento infantil por entidades como família e/ou igreja.
5. Considerações Finais:
A experiência do projeto “Tem Estudante no MUMAR” reafirma a importância dos museus como espaços educativos e a potência das atividades extraclasse no ensino de História. A articulação entre currículo, professores, estudantes e instituições culturais viabiliza um ensino mais significativo, pautado na vivência, na investigação e na valorização do patrimônio local.
Entre os principais desdobramentos do projeto, destacam-se a solicitação de ampliação da proposta para outras etapas escolares e a identificação da necessidade de elaboração de materiais didáticos de apoio, tanto para a preparação quanto para o aprofundamento posterior às visitas.
Por fim, o projeto demonstrou que a educação histórica, quando alinhada ao território e às vivências dos sujeitos, contribui de forma efetiva para a formação de cidadãos críticos, conscientes e comprometidos com a memória e a diversidade cultural da sociedade em que vivem.
Referências:
BARCA, I. O pensamento histórico dos jovens. Braga: Universidade do Minho, 2000.
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular – BNCC. Brasília: MEC, 2017. Disponível em:http://basenacionalcomum.mec.gov.br
CATELLI, Roberto. BNCC e a História na Educação Básica: um pouco mais do mesmo. In: CÁSSIO, Fernando; CATELLI, Roberto. Educação é a Base. Ação Educativa, 2019.
DOARTE, Luciano Chinda. A Identidade Cultural Afro-brasileira no Museu Municipal Atílio Rocco: um estudo sobre mudanças narrativas e propostas curatoriais (2010-2020). Dissertação (Mestrado em História), Setor de Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2022.
GOB, André; DROUGUET, Noémie. A Museologia: história, evolução, questões atuais. Tradução: Dora Rocha, Carlos Alberto Monjardim. Rio de Janeiro: FGVEditora, 2019.PARANÁ. Referencial Curricular do Paraná: princípios, direitos e orientações. Curitiba: SEED, 2018.
SÃO JOSÉ DOS PINHAIS. Referencial Curricular de São José dos Pinhais. SEMED, 2020.1 Professora da rede municipal de São José dos Pinhais, doutoranda do PPGH-UEM.
2 Professor e Historiador. Ex-Diretor do Museu Municipal Atílio Rocco. Atual Presidente do Conselho Municipal de Cultura de São José dos Pinhais.
