Luana Mendo
Na cidade de São José dos Pinhais no final da década de 1920 teve início a construção da Usina Chaminé. Situada na margem esquerda do rio São João, a obra de engenharia tinha até sua localização um grande obstáculo: quilômetros de mata fechada que dificultavam o acesso e o trânsito dos trabalhadores até o local. Foi graças a Serafim Teixeira Machado, vaqueano que conhecia bem a região e que atuou como guia para a equipe da Companhia de Força e Luz do Paraná, que foi possível determinar o local da construção.
Para o transporte dos funcionários, maquinários e peças até o local da obra, foi construído o que hoje podemos considerar um marco para esta Usina Hidrelétrica: o trole. Este “carrinho de aço”, uma espécie de bondinho, ligava a vila residencial á casa de força, a viagem por seus 27 metros de trilhos durava aproximadamente 10 minutos, passando por diversos declives, alguns de até 55 graus.
Em virtude da magnitude do projeto, o primeiro de grande porte de uma Hidrelétrica no Paraná, a usina adquiriu grande importância econômica e social, sendo manchete em vários jornais durante e após sua construção. Algumas matérias publicadas em periódicos locais deixam evidente a grandiosidade e a importância do projeto.


O Jornal “O Dia” publicou uma matéria no ano de 1929 informando qual seria a localização da Hidreletrica, além de trazer o explicação para seu nome, já em 03 de Março 1931 fez um convite ao povo da cidade de Curitiba, esta chamada estimulava todos a comparecerem no evento de inauguração da “Usina do Chaminé” .
Um rumor levantado durante a construção da Usina foi o da existência de uma mina de ouro no local das obras, foram várias as matérias sobre o assunto no período. Uma delas foi publicada pelo jornal “O Dia” em 1931, nele encontra-se a fala do Sr. R. H. Whinting, então diretor da CFLP (Companhia Força e Luz do Paraná), sobre este assunto. Ele desmentia os boatos que acusavam a Companhia, tanto de exercer garimpo ilegal na região quanto de contrabandear ouro.
A acusação gerou muita polêmica na época, houve uma reunião com jornalistas e com Sr. Whinting, a intenção era prestar esclarecimentos sobre tais rumores. Ainda segundo o Jornal “O Dia”, o norte-americano informou que já existia um inquérito policial, solicitado pela própria direção da CFLP. A intenção era provar que a suposta mina, e a exploração da mesma por parte da Companhia Força e Luz do Paraná, não passavam de levantamentos falsos. Tais acusações nunca foram comprovadas.

Este tipo de matéria evidência mais ainda a relevância da construção para a região. Era algo tão notório que além de ser noticia em vários jornais, tema de conversa pelas ruas, bares e praças, lendas eram criadas em torno dos trabalhos realizados na densa mata.
A edificação, realizada sob a liderança do engenheiro americano Howell Fry, foi finalizada em 1931, anos mais tarde, na década de 1970 a Usina Chaminé foi incorporada pela Companhia Paranaense de Energia. Ela é ativa atualmente sendo considerada a mais antiga do sistema Copel em funcionamento, sua capacidade é de 18 MW.
Localizada em uma APP (área de preservação permanente), a usina, segundo o site da própria companhia , conta com vários programas de Gestão Ambiental, são eles: Inspeção Ambiental do Reservatório, aonde uma equipe percorre a margem do rio para a verificação da situação dos lagos e das APPs. Já o Programa de Gerenciamentos de APPs- florestas ciliares, consiste em mapear a real situação das Apps, através dessas informações é realizado o gerenciamento das áreas. Monitoramento da qualidade das águas superficiais e água potável, que diz respeito ao monitoramento de água e de seus reservatórios e, por fim, o Monitoramento da Ictiofauna, que analisa as condições da fauna de peixes. Os relatórios do programa são anualmente protocolados junto ao IAP (Instituto Ambiental do Paraná).
Planejamentos assim são importantes, pois tem como seu principal objetivo evitar futuros impactos ambientais. Como nos diz Wanderley Lemgruber de Sousa:
As obras hidrelétricas, de uma forma geral, produzem grandes impactos sobre o meio ambientem que são verificados ao longo e além do tempo de vida da usina e do projeto, bem como ao longo do espaço físico envolvido. Os impactos mais significativos e complexos ocorrem nas fases da construção e de operação da usina, os quais poderão afetar o andamento da própria obra (SOUSA, 2000, p.9).
Pensando no caso da Usina Chaminé, são escassos os relatos de problemas ambientais encontrados durantes sua construção, no entanto, é sabido que qualquer empreendimento deste porte acaba por causar danos, mesmo que moderados, ao meio ambiente.
Em matéria publicada pelo jornal Diário da Tarde, no dia 19 de Maio de 1935, por exemplo, existe o relato de um problema oriundo da grande quantidade de chuvas na região. Elas traziam riscos de deslizamento de terras, impedindo o funcionamento da usina e, conseqüentemente provocando o racionamento de energia, algo que foi comum durante a história da hidrelétrica. Com intuito de sanar o problema foi aplicada uma camada de asfalto sobre o solo, que mais tarde foi parcialmente destruída por conseqüência das próprias chuvas e do crescimento de árvores enraizadas no local, a equipe da usina realizou da remoção dessas árvores e providenciou o concerto da camada de asfalto.

Obras de grande porte como usinas hidrelétricas, sempre terão conseqüências ambientais devido a intervenção do ser humano, para definir quais são estes problemas existem resoluções do meio ambiente um exemplo seria a RESOLUÇÃO CONAMA nº 1, de 23 de janeiro de 1986:
Pode ser considerado um impacto ambiental toda alteração química, física e biológica de um meio ambiente, causada por intervenção humana que direta ou indiretamente afeta o bem estar da população, atividades sociais, econômicas, as condições estéticas e sanitárias deste meio, e a qualidade dos recursos naturais presentes nele. Tudo isso só poderá ser considerado um impacto ambiental caso tenham tido origem humana, e não natural (CONAMA, 1986).
É importante salientar que impactos ambientais não são necessariamente ruins, podem ser tanto positivos quanto negativos. Dentre os considerados desfavoráveis estão: a ampla área de inundação, que, devido ao levantamento das barragens, alagam uma grande parte do território, afogando animais e submergindo a vegetação, entretanto, existem os impactos positivos como a irrigação de grandes áreas próximas do local da inundação, facilitando o plantio, além da evaporação da água em uma superfície maior. (KARDEC,2014)
Segundo o “Manual de Gestion Ambiental para Obras Hidraulicas de Aprovechamieto Energético” (REVORA,1987) os projetos hidrelétricos devem ter como seu objetivo a qualidade de vida da população, promovendo o uso racional e sustentável dos recursos. Sendo assim, com o propósito de minimizar os efeitos negativos e maximizar seus benefícios, a gestão ambiental deve estar presente nas fases inicias da usina até sua finalização e ao longo da vida útil. (SOUSA, 200, p. 9). Fernando Almeida em seu livro “O Bom Negócio da Sustentabilidade”, nos da uma introdução do conceito de sustentabilidade:
A noção de sustentabilidade pode ser melhor entendida quando atribuímos um sentido amplo à palavra “sobrevivência”. O desafio da sobrevivência – luta pela vida – sempre dominou o ser humano. Inicialmente, no enfrentamento dos elementos naturais; e, mais tarde, sobretudo agora no século XXI, no enfrentamento das conseqüências trazidas pelo imenso poder de transformação desses elementos acumulado pelo homem. (ALMEIDA 2002, p.27)
Já que a gestão ambiental e a sustentabilidade visam o bem-estar social, econômico e ecológico, acabam por portar uma correlação, esta correlação pode ser notada dentro das próprias usinas hidrelétricas, que tem como função principal o fornecimento de energia, que geraria bem-star social para uma grande parte da população local, no entanto, também gera impactos ambientais que devem ser analisados, visando uma estabilidade entre a preservação ambiental e o bem-estar humano.
A gestão ambiental, procura buscar soluções sustentáveis, gerando um menor número danos, um ambiente saudável para os envolvidos e usuários dos serviços, além disso, muitas vezes pode haver uma redução dos custos gerados.
De acordo com o documento “Nosso futuro Comum’’, (relatório ambiental que apresenta possíveis soluções para um desenvolvimento mundialmente sustentável), ‘o desenvolvimento sustável é aquele que atende as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades. O desenvolvimento deve existir de maneira saudável, para que não prejudique tanto o presente quanto o futuro.
Alterações no meio ambiente são inevitáveis; podem ser tanto naturais quanto humanas, de grande ou pequeno porte, existem desde o projeto de uma usina hidrelétrica até o simples ato de consumo de mercadorias, contudo é possível a redução e o controle dos impactos gerados por essas alterações.
No Brasil, grande parte da energia elétrica é gerada na usinas hidrelétricas, o país tem uma central que utiliza fontes energéticas renováveis com baixo impacto ambiental. Embora seja uma geração de energia limpa, as usinas causam impactos socioambientais, por isso estas construções geram tanto conflitos e discussões (CUSTÓDIO; LORUSSO; CAVALCANTE; LOPES, 2022 p. 9). É importante notar que estas discussões são essenciais para que novas revisões dos projetos sejam feitas e que paulatinamente esses impactos sejam mitigados.
Referências:
ALMEIDA, Fernando. O Bom Negócio da Sustentabilidade. 1ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.
CONAMA- Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução nº 1, de 23 de janeiro de 1986, Ministério do Meio Ambiente. 1986
CUSTÓDIO, Douglas; LORUSSO, Jhonnata; CAVALCANTE, Nogueira Angelo, Lorenzo; LOPES, Ferreira Lopes. Usinas Hidrelétricas e seus impactos ambientais, v. 2 (2022): Anais da Exposição Anual de Tecnologia, Educação, Cultura, Ciências e Arte do Instituto Federal de São Paulo – Câmpus Guarulhos – Exatecca, 2022. Disponível em: https://revista.gru.ifsp.edu.br/exatecca/article/view/76 Acesso em: 05/05/2023
KARDEC, Alan. HIDRELÉTRICAS A “FIO D’ ÁGUA” E A QUESTÃO AMBIENTAL – UM TIRO NO PÉ! Bloclogística, 2014. Disponível em: https://bloglogistica.com.br/mercado/hidreletricas-fio-dagua-e-questao-ambiental-um-tiro-pe/ Acesso em: 28/04/2023
REVORA, S. A., Manual de Gestion Ambiental para Obras Hidraulicasde Aprovechamento Energético, Buenos Aires, Secretaria de Energia da República Argentina. 1987. Disponível em: https://www.enre.gov.ar/web/bibliotd.nsf/($IDWeb)/5BADBEC77A219F5D03256766005CC419 Acesso em: 28/04/2023
SOUSA, Wanderley Lemgruber. Impacto ambiental de Hidrelétricas: uma análise comparativa de duas abordagens, 2000. Disponível em: http://antigo.ppe.ufrj.br/ppe/production/tesis/wlemgruber.pdf Acesso em: 05/05/2023