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Jornal Correio de São José de 1953
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Título
Jornal Correio de São José de 1953
Descrição
Jornal Correio de São José do dia 25 de Janeiro de 1953, página 3. Ode à São José dos Pinhais, escrita por Francisco Pereira da Silva, do Centro de Letras do Paraná e da Academia de Letras José de Alencar. Escrita especialmente para as grandes Festas comemorativas do 1° Centenário da instalação do Município de São José dos Pinhais.
Transcrição
Correio de São José
25 de Janeiro de 1953
Página 3
ODE A SÃO JOSÉ DOS PINHAIS
FRANCISCO PEREIRA DA SILVA
(DO CENTRO DE LETRAS DO PÁRANA e DA ACADEMIA DE LETRAS “JOSÉ DE ALENCAR”)
(Escrita especialmente para as grandes Festas comemorativas do 1° Centenário da instalação do Município de São José dos Pinhais
8 de Janeiro de 1853
8 de Janeiro de 1953)
(Fotografia de Francisco Pereira da Silva)
I.
Os feitos dos heróis já consagrados
pela História , cantemos com vigor,
mesmo sejam os sec’los passados
jamais perderão eles seu valor.
Que jamais homens assim tão denodados
têm sempre para nós viço e calor.
Que saiba o humano verbo, convincente.
as glórias descrever de uma tal gente!
II.
Agora reportemo-nos á idade
de ouro em que o pequeno Portugal,
no apogeu de sua prosperidade
era, entre as mais nações, a principal.
Quando vencendo a salsa imensidade
chega ao Brasil a frota de Cabral,
impávida arrancando ao mar profundo
um novo mundo e dando-o ao Velho Mundo!
III.
Eis que, mais tarde, aporta a expedição
desse Martin Afonso denodado,
que a Côrte manda numa exploração
necessária ao domínio conquistado.
Preciso é devassar o ínvio sertão
pelo rijo selvícola habitado,
sempre em nome do Rei de Portugal,
deixando para trás o litoral.
IV.
Percorrem com denodo os Portuguêses
toda alonga e azulada serrania.
São mêses de viagem, muitos mêses
hora a hera através, dia após dia,
sofrendo o horror de túrbidos revezes
mas sempre com indômita energia.
Lenbra tal marcha homérica epopéia
que teve início, ao longo, em Canéia.
V.
Eis que, aos poucos, desvenda-se o horizonte,
em verdejantes moitas de pinhais,
cresce de orgulho, perlustrando-o mais.
Até o perfil do derradeiro monte
já está distante, esmaecido, atraz.
E a caravana intrépida prossegue
ao mesmo afan conquistador entregue.
(Ama, com fé e orgulho,
a terra em que nasceste.
OLAVO BILAC)
VI.
Marcham, à frente. ávidos de ouro,
nesses duros sertões desconhecidos,
botas de montear, chapéus de couro
e por Francisco Chaves dirigidos.
Este é moreno claro, aquele, louro,
todos ao mesmo argênteo ideal unidos,
VII.
Já do Goyo. Covó às cabeceiras
Chegam êles, exaustos das jornadas.
Para o léste as abruptas cordilheiras
e em tôrno o verde plaino das chapadas.
Eis senão quando surgem, traiçoeiras,
levas de tríbus bem cruéis e iradas
que, num grite de guera e de pavor
acometem de súbito o invasor.
VIII.
Trava-se o rijo embate que, bem logo,
a derrota a esses bravos determina.
Ouve-se, ao longe, o crepital do fogo
e tombam, um a um, sob a chacina.
Dos índios só se escuta o vil regougo,
prêsos de fúria insólita e assassina.
Riscam flechas o ar. Calam-se os ais.
Ao sólo patrio êles não voltam mais.
IX.
Eis nos em mil seiscentos e noventa!
Na placidez dos campos e das serras
já o edificio humilimo se assenta
de uma Capela ornamentando as terras.
Quem tal engenho de piedade inventa?...
Oh missionário cândido que erras
de tais êrmos no ríspido caminho?
És tu, Padre João Veiga Coutinho!
X.
E do tempo na eterna trajetória
a Capela se mostra sobranceira.
Conta de Cristo a comovente história
num pedaço da patria brasileira.
Foi de Coutinho, certo, a maior glória
pois da Religião traçando a esteira,
ninho de paz tornou-se e de orações,
ao Senhor Bom Jesus, que é dos Perdões
XI.
À Capela, porém, que a Crença exprime,
liga-se um fato – a Lenda nô-lo diz...
de um tenebroso, emocionante crime
que assim que o quiz a sorte e Deus o quiz!
Ninguém, por cento, à culpa se redime.
É a perda de um casal então feliz,
sob armas crueis, morto, desfeito,
à noite assassinado e no seu leito
XII.
Antonio Lopes e Maria Coutinho
trucidados estão...No país inteiro
buscam-se os criminosos e advinho
um motivo político, primeiro.
Eram pessoas de prol e com padrinho
na velha Côrte do Rio de Janeiro.
Pois, um delito assim, feito à traição,
a colera atraiu da povoação,
(continua na pag. seguinte)
XIII.
Seus filhos, conhecendo que a Justiça
era fraca em deter o criminoso,
-a saudade dos pais como os atiça
a uma justa vindita sem repouso,-
tomam a peito a causa e põem-se á liça,
reclamam solução rápida e ouso
afirmar quanto anceiam, com razão,
dos culpados ver justa punição.
XIV.
Mas têm esses amigos influentes
que lhes desejam obter perdão
insuflando no ânimo das gentes
o doce iutuido da conciliação.
Enbalde chamam filhos ou parentes
das vitimas, que negam seu perdão,
que por falta dos pais são desgraçados
e querem ver na forca esses culpados.
XV.
E recorrem depois, última instância
da Candelária ao Cura respectivo,
para que fúria assim tão forte amanse-a
e termine com ódio tão nocivo.
Mistér que a paz à região alcance-a,
para o maior progresso coletivo,
que nesse afan sua elopuência esgote,
não fosse êle um grande sacerdote!
XVI.
Atendendo ao pedido que lhe é feito
ei-lo os irmãos Coutinho já procura.
Fala-lhes com tal arte e com tal jeito
que a reconciliação quase assegura.
De Cristo a Cruz carrega-a junto ao peito,
Imagem de piedade e de ternura,
mostrando-lhes que a glória do Perdão
é o maior dever de um bom cristão,
XVII.
Exige agora João Aeiga Coutinho,
filho desse casal assassinado,
da vingança quebrando o agudo espinho
que no peito sentia atravessado,
que a Cruz que o Padre traz, com que carinho,
(já olvidando as misérias do passado),
lhe seja dada em troca, oh prenda bela,
para ornato melhor de sua Capela.
XVIII.
Capela que pretende construir
em memória da morte de seus pais,
monumento que fique a refletir
os seus puros intensos filiais,
como eterna lenbrança, no porvir,
de uma saudade que não finda mais,
erguida ao céu, qual mística oferenda,
no terreno melhor de sua fazenda
XIX.
Os anos passam rápidos. Agora
a olhos vistos aumenta a povoação.
Chega mais gente ali e à toda a hora,
na mesma febre de mineração.
E todos ficam e ninguém vai embora
e buscam água do Rio São João,
manancial de oculto e grão tesouro
em pepitas esplândidas de ouro.
XX.
E cresce mais e é melhor, dia a dia,
Essa localidade alviçareira.
A terra é boa e é grande a romaria,
buscando-a senpre, farta e hospitaleira.
E é elevada, afinal, à freguezia,
Dentre todas, em volta, ei-la primeiras,
E a Capela é matriz paroquial.
enquanto não se ergue a principal.
XXI.
Bem mais tarde é a Capela demolida
E novo Templo toma vulto e pé.
A antiga povoação tem outra vida
E chama Patrocínio São José.
Vai o tempo levando de vencida,
Cresce a população
Dimensões
26,5 cm x 37 cm
Doador
Juarez da Costa
Material
Papel
Cor predominante
Amarelo
