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A PATRIMONIALIZAÇÃO DA CAPOEIRA


Lucas E. P. Lage

PATRIMÔNIO CULTURAL
Chamamos de patrimônio cultural, no contexto ocidental contemporâneo,bens com uma grande importância para uma determinada comunidade, nação ou até mesmo para a humanidade, são heranças criadas a partir do conhecimento acumulado por uma sociedade, que garantem uma identidade própria ao seu povo criador e ao seu local de origem. A salvaguarda desses bens consiste na proteção e garantia dos mesmos concedidas por uma autoridade ou instituição, no caso do patrimônio cultural essa ação é desenvolvida através de políticas públicas e instituições específicas em âmbito nacional, e convenções, acordos e programas de cooperação promovidos por órgãos internacionais.


A primeira convenção internacional voltada à salvaguarda do patrimônio cultural foi a Carta de Atenas, redigida por representantes dos países membros da chamada Sociedade das Nações, atual Organização das Nações Unidas (ONU), em uma convenção no ano de 1931, que tinha como objetivo a sugestão de políticas para proteção de bens culturais ao redor do mundo. Seguindo a busca pela preservação do patrimônio cultural, em 1945 é criada a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), com o objetivo de “fomentar a paz internacional por meio da cooperação nas áreas da educação, da ciência e da cultura”. A Unesco é a principal organização internacional a promover convenções, documentos, programas e projetos com interesse na proteção do patrimônio cultural.


No Brasil, a primeira instituição a regulamentar a salvaguarda de bens culturais foi o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), antiga denominação do órgão federal de proteção ao patrimônio cultural brasileiro, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Funcionando a partir de 1936, o SPHAN, tinha como função “o tombamento, a conservação, o enriquecimento e o conhecimento do patrimônio histórico e artístico nacional” (BRASIL, 1937, art. 46).


Nunca é demais lembrar que, antes mesmo da criação desse órgão, Mário de Andrade, mentor do pré-projeto que deu origem à lei do tombamento, conjeturava a relevância do estudo sobre as manifestações populares. Na contramão das idéias elitistas, que tendiam a dissociar o folclore e a cultura popular dos demais fenômenos sociais ou reduzi-los à “valorização do pitoresco”, Andrade e Câmara Cascudo consideravam-nos instrumentos de conhecimento e objeto pertinente às ciências sociais. Ambos “jamais negaram as tradições brasileiras”, e as apreenderam no âmbito de “uma visão dinâmica da sociedade, na qual as tradições se transformaram pela mobilidade que possuem” (PELEGRINI, 2008).


Entretanto, a atuação do SPHAN nos anos seguintes não aconteceu como Mário de Andrade havia imaginado, o órgão foi regido por um grupo de intelectuais, que a partir de uma mentalidade colonial e elitista, privilegiou as referências europeias e a cultura modernista nacional, ignorando a cultura popular brasileira. “Por um lado, os estudiosos do folclore […] apresentavam um Brasil de ricas e variadas tradições, raízes da cultura brasileira. Por outro lado, anunciavam o risco de desaparecimento desta diversidade cultural em detrimento de uma cultura tecno-industrial homogeneizante.” (VIANNA, 2016). Embora o anteprojeto do SPHAN já apresentasse a ideia de que fatos culturais teriam interesse patrimonial para os poderes públicos, a institucionalização do patrimônio imaterial no Brasil só ocorreu a partir do artigo 216 da Constituição Federal de 1988.


“Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I – as formas de expressão; II – os modos de criar, fazer e viver; III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. (BRASIL, 1988, Art. 216).

Essa nova política em relação aos bens intangíveis se concretiza no ano 2000 a partir do Decreto 3.551/2000, que instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial e o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, ao realizar a abertura de quatro novos livros: o Livro de Registro dos Saberes, o Livro de Registro das Celebrações, o Livro de Registro das Formas de Expressão e o Livro de Registro dos Lugares

A CAPOEIRA COMO BEM IMATERIAL
A Capoeira é uma manifestação cultural multifacetada, é ao mesmo tempo dança, jogo e luta, sua prática é documentada no Brasil desde o século XVIII, sendo provavelmente ensinada por mestres, contramestres, professores e instrutores há muito mais tempo. Com ligações comprovadas a práticas ancestrais africanas, a capoeira foi concebida nos centros urbanos em formação, principalmente em cidades portuárias, onde chegaram grandes quantidades de pessoas escravizadas. Durante grande parte de sua história a capoeira foi marginalizada e perseguida, esse fato é corroborado pelo seu mais antigo registro encontrado: um documento do ano de 1789 referente à libertação de um homem escravizado chamado Adão, preso nas ruas do Rio de Janeiro por praticar a capoeiragem. Essa repressão sofrida pelos capoeiras atingiu seu auge em 1890, quando sua prática foi criminalizada durante o governo de Marechal Deodoro da Fonseca, pelo decreto n° 487 de outubro de 1890, em seu capítulo XIII: Dos Vadios e Capoeiras.


Os anos 1930 foram um período de grande mudança para a capoeira, a começar pela divisão da prática em duas correntes, a capoeira angola e a regional. Nessa época surge um crescente interesse de intelectuais e pesquisadores por essas manifestações culturais, neste contexto, a capoeira regional na figura de Mestre Bimba e suas iniciativas para a oficialização jurídica da capoeira, são tidos como essenciais no processo histórico de legitimação e legalização do ensino da capoeiragem. Junto com o Estado Novo, em 1937, se iniciou a descriminalização da capoeira, quando Bimba recebeu autorização para manter seu Centro de Cultura Física e Capoeira Regional. Nesse período ocorre a nacionalização da capoeira, a ideia da capoeira como “arte marcial brasileira” norteou as primeiras iniciativas públicas, que condiziam com o espírito nacionalista da época, criando uma rivalidade entre os praticantes da capoeira regional, que reivindicam a origem brasileira da capoeira, e os praticantes da angola, que afirmam sua ancestralidade africana, assim como Pastinha, seu mais influente mestre.


No ano de 2006 foi dado o início ao esforço de patrimonialização da capoeira através do Inventário para Registro e Salvaguarda da Capoeira como Patrimônio Cultural do Brasil, nas palavras da ex-presidente do IPHAN, Jurema Machado (2014) “A divulgação dos processos de Registro e dos resultados do trabalho institucional contribui para a extensão do reconhecimento desse patrimônio pela sociedade brasileira e favorece as condições de sua permanência”. A pesquisa para esse inventário foi dividida em três eixos: pesquisa historiográfica; trabalho de campo; abordagem de temas relacionados à capoeira, como a reflexão sobre o aprendizado e a descrição das rodas, realizados, visto a impossibilidade de abranger todo o território nacional, nas capitais da Bahia, do Rio de Janeiro e de Pernambuco, cidades portuárias nas quais a capoeira se desenvolveu grandemente através da história, entre 2006 e 2007.


O inventário produzido através do trabalho deste grupo multidisciplinar, composto por profissionais das áreas de antropologia, história, psicologia, educação física e artes cênicas, ocasionou, em 15 de julho de 2008, o registro da “Roda de Capoeira” e o “Ofício dos Mestres de Capoeira” como bens imateriais do Brasil nos Livros de registro das “Formas de Expressão” e de “Saberes”, que tratam sobre manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas, e conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades respectivamente.

AS IMPLICAÇÕES DA PATRIMONIALIZAÇÃO DA CAPOEIRA
É importante levar em conta que o processo de patrimonialização da “Roda de Capoeira” e do “Ofício dos Mestres de Capoeira”, não foi um tranquila e muito menos um consenso geral, diferentes visões sobre essa manifestação cultural centenária entraram em conflito em reuniões, que visavam a elaboração de políticas públicas de incentivo e salvaguarda da capoeira, realizadas durante o desenvolvimento de seu inventário.


“[…] esses encontros geraram uma série de conflitos e divergências entre os capoeiristas, pois requeriam que certas decisões consensuais fossem tomadas por praticantes que não necessariamente compartilham o mesmo entendimento sobre o que seja a capoeira. Os conflitos adquiriram tamanha proporção que acarretaram na saída de importantes mestres e capoeiristas das reuniões, por discordarem dos rumos que estas estavam tomando. Esses mestres e capoeiristas chegaram a redigir cartas abertas com denúncias que circularam pela Internet.” (VASSALLO, 2012)

Cabe lembrar que a capoeira foi registrada como patrimônio nacional brasileiro, deixando insatisfeitas pessoas que gostariam que a capoeira fosse reconhecida como um patrimônio afro-descendente, mudando as relações de poder sobre quem detém e quem realiza a manifestação, além disso, essa forma de registro parece favorecer a visão de uma das correntes, não levando em conta a capoeira como um todo e contribuindo para uma representação homogeneizante da capoeira. Lembremos também, que as novas políticas públicas e editais destinados ao fomento da capoeira criaram uma espécie de gentrificação da prática, por serem extremamente burocráticas e excludentes de uma grande parcela de mestres e praticantes. É inegável, entretanto, que o processo de patrimonialização contribui com uma maior e mais ampla legitimação desta prática tão presente no território nacional brasileiro, ao divulgar, desmistificar e quebrar estereótipos em relação à capoeira, contudo se faz necessária a contínua manutenção das vias de diálogo e reivindicação abertas.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº. 378, de 13 de janeiro de 1937. Dá nova organização ao Ministério da Educação e Saúde Pública. Rio de Janeiro/Capital Federal, 1937.

BRASIL. Decreto n°. 3.551, de 4 de agosto de 2000. Institui o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial que constituem patrimônio cultural brasileiro, cria o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial e dá outras providências. Brasília, 2000.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.

CUNHA, Igor; VIEIRA, Luiz; TAVARES, Luiz; SAMPAIO, Tânia. Capoeira: a memória social construída por meio do corpo. Movimento, Porto Alegre, v. 20, ed. 2, p. 735-755, abr./jun. 2014.

PELEGRINI, Sandra C. A. A gestão do patrimônio imaterial brasileiro na contemporaneidade. História, v.27, n.2, p.145-173, 2008.

REZENDE, Maria Beatriz; GRIECO, Bettina; TEIXEIRA, Luciano; THOMPSON, Analucia. Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN. In: __. (Orgs.). Dicionário IPHAN de Patrimônio Cultural. Rio de Janeiro, Brasília: IPHAN/DAF/Copedoc, 2015. (verbete).

VASSALLO, Simone. De quem é a capoeira ?: Considerações sobre o registro da capoeira como patrimônio cultural imaterial do Brasil. Cultures-Kairós, Paris, 16 dez. 2012.

VIANNA, Letícia C. R. Patrimônio Imaterial. In: GRIECO, Bettina; TEIXEIRA, Luciano; THOMPSON, Analucia (Orgs.). Dicionário IPHAN de Patrimônio Cultural. 2. ed. rev. ampl. Rio de Janeiro, Brasília: IPHAN/DAF/Copedoc, 2016. (verbete).

Patrimônio Imaterial: O Registro do Patrimônio Imaterial: Dossiê final das atividades da Comissão do Grupo de Trabalho Patrimônio Imaterial. BrasÌlia: Ministério da Cultura / Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 4. ed, 2006.

Roda de Capoeira e ofício dos mestres de capoeira / Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. – Brasília, DF : Iphan, 2014.

CAPOEIRA ANGOLA


Vinícius Velozo de Araújo


INTRODUÇÃO:
No ano de 2008 a capoeira é reconhecida como patrimônio cultural do Brasil, com o intuito de salvaguardar memórias da resistência africana e sua importância na construção cultural e identitária brasileira. Outro grande passo no combate ao esquecimento e a desvalorização, ocorreu no ano de 2014, na qual a Unesco reconheceu a prática da roda de capoeira como bem imaterial da humanidade, levando em conta que estes conhecimentos e ritos encontram-se em mais de 150 países. Isto posto, a sua salvaguarda como patrimônio cultural possibilita mediante a prática de rodas de capoeiras, uma passagem de memórias orais, ritos e ensinamentos de mestres detentores dos saberes históricos aos seus alunos, constituindo desta maneira uma memória viva, hereditária e combatente ao esquecimento.


Assim diz a salvaguarda produzida pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional):

“O objetivo dos Registros da Roda de Capoeira e do Ofício de Mestres de Capoeira foi o de valorizar a história de resistência negra no Brasil, durante e após a escravidão. O reconhecimento da “Capoeira” como patrimônio demarca a conscientização sobre o valor da herança cultural africana. Herança esta que, no passado, foi reprimida e discriminada, inclusive com práticas – como a própria roda de Capoeira – oficialmente criminalizadas durante um período da história do Brasil.” (Cartilha Salvaguarda da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres de Capoeira: Apoio e Fomento. Brasília/DF: IPHAN,2017. p. 7) disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Car tilha_salvaguarda_capoeira.pdf

A capoeira enquanto movimento identitário e educativo, bem como a constituição de uma ferramenta que possibilita o resgate de uma ancestralidade africana. É conhecida como linhagem de pensamento capoeira angola. A importância desta prática vai muito além de um jogo, está mais ligada há uma reconexão com suas origens e uma maneira de se identificar com coletivos, pautados na resistência e luta contra preconceitos, que infelizmente permeiam a história da capoeira desde seus primeiros registros e aparições. Porém além da resistência às perseguições e das perceptíveis heranças escravocratas em nossa sociedade, a capoeira angola busca outros ideais. Pautados na reafirmação de suas origens africanas e as diversas práticas para a manutenção de seus ritos e ensinamentos, passados de mestres para aprendizes, definindo-se como uma memória viva mediante a sua prática, e evocando uma história oral e dinâmica para a passagem de saberes antigos e fundamentais para identificação e pertencimento dos capoeiristas.


A difusão desta corrente, dentro da capoeira, está ligada à atuação de Vicente Joaquim Ferreira Pastinha (figura 1), o mestre Pastinha, nascido em 5 de abril de 1889 em Salvador, Bahia. Vicente teve contato com a capoeira pela primeira vez, quando tinha 10 anos por intermédio de Benedito, que posteriormente viria a lhe apresentar conceitos fundamentais como a mandinga e os exercícios presentes na roda de capoeira. Pastinha torna-se então professor de capoeira no ano de 1910 na ilegalidade, visto que a prática da capoeiragem era criminalizada. Já na década de 40 funda a primeira escola de capoeira angola o Centro Esportivo de Capoeira Angola ( CECA) (figura 2). Posteriormente mestre Pastinha pública o livro “Capoeira angola” no ano de 1965, neste livro o mestre defende o caráter não violento da capoeira, priorizando assim outras motivações para a prática. Como por exemplo a solidariedade entre seus praticantes, a dignidade, e o respeito. Da mesma maneira que mantém em suas aulas ensinamentos ancestrais, ritos e histórias dos povos descendentes da diáspora africana. Constituindo assim uma filosofia específica da capoeira , para além disso um modo de vida aos praticantes.

CAPOEIRA ANGOLA E CAPOEIRA REGIONAL
A capoeira é um campo diversificado de pensamento e que cabem interpretações que hora se assemelham e hora se diferenciam. Esse é o caso de duas visões mais disseminadas da capoeira, que são elas a regional e a já comentada angola. Essas duas correntes de pensamentos estão ligadas à atuação de dois grandes mestres de capoeira. O mestre Manoel dos Reis Machado, popularmente conhecido como mestre Bimba, e o mestre Vicente Ferreira Pastinha.Comentaremos brevemente sobre as duas correntes, em primeiro a capoeira regional de mestre Bimba, mestre nascido em 23 de novembro de 1899, Salvador, Bahia. Neste “estilo” de jogo, procura-se uma visão de que a capoeira pode ser mais integrada com a sociedade em que se encontra inserida, deixando um pouco de lado a visão tradicionalista encontrada no estilo angoleiro. A partir dos anos 30, esse estilo foi mais aceito pelo governo, em um contexto em que se buscava uma certa “identidade” nacional, a capoeira é vista então como um esporte ou manifestação artística, inteiramente brasileira. O fundamento importante percebido no estilo regional, que facilitou a sua maior aceitabilidade por parte das autoridades, é justamente uma esportivização maior da capoeira como uma luta brasileira, indo de encontro com a busca pela “identidade” nacional, que tentava-se construir naquele contexto, confluência percebida no encontro de mestre Bimba e Getúlio Vargas.


Sobre o estilo angola, o enfoque principal do texto. Nota-se a tentativa de conservação da tradição africana, se difere da regional inclusive sobre o entendimento acerca da origem da capoeira. Enquanto no estilo de bimba tem a visão de que a capoeira nasceu com os escravizados do Brasil juntamente com influências dos povos originários. A capoeira angola acredita que o nascimento advém da áfrica e do povo bantu, influenciada pela dança N’golo (dança da zebra). Sobretudo é na capoeira angola que notamos a construção do resgate da influência africana, pautado principalmente na religiosidade e no caráter ritualístico do jogo de roda. Como também o entendimento da capoeira não somente como luta ou esporte, mas como uma manifestação prática de uma filosofia de vida, pautada na identidade de sua ancestralidade africana.


CAPOEIRA ANGOLA E A RELIGIOSIDADE:
Os capoeiristas da linhagem angola valorizam muito a conexão entre a capoeira e a religiosidade de matriz africana como por exemplo o candomblé, caracterizando-se com um conceito de misticidade ou ritualismo no exercício do jogo. Palavras religiosas como a mandinga” se fazem muito presentes nos ensinamentos, este termo é caracterizado pela misticidade advinda da herança e ensinamentos acerca de seus ancestrais. Vista quase como uma proteção e guia ao decorrer de sua vida, por meio da espiritualidade depositada em seus antepassados, de onde vem o conceito de “corpo fechado”. Muitos praticantes resgatam a tradição de usar o colar ou a bolsa de patuá como símbolo de proteção. O trabalho da pesquisadora de capoeira angola na Bahia, Christine Nicole Zonzon. Explicita a relação de proximidade da religiosidade candomblé com a capoeira:


“ De fato, tem-se observado, ao longo dos últimos anos, algumas alterações no processo de aprendizagem e na realização do ritual da roda que tendem a pôr em destaque o vínculo tradicional entre capoeira e religiosidade africana. Entre outros elementos, pode-se citar a incorporação mais sistemática, no âmbito do repertório corporal, de posturas e gestos inspirados do candomblé; a inclusão no repertório das cantigas de um número significativo de cantos em língua banto; o recurso ao conceito de “linhagem” para representar as gerações sucessivas de mestres; a promoção da participação de especialistas religiosos do candomblé nos eventos de capoeira e, de modo geral, uma maior ênfase, nos discursos, sobre as ligações entre capoeira angola, tradição africana e espiritualidade.” (Cartilha Salvaguarda da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres de Capoeira: Apoio e Fomento. Brasília/DF: IPHAN,2017. p. 7)

disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Car tilha_salvaguarda_capoeira.pdf


Outro importante conceito já citado anteriormente é o da “mandinga” que pode ser tanto a expressão que demonstra um modo de vida regido por uma misticidade na presença de seus ancestrais em sua proteção. Como também é utilizada para definir a qualidade dos capoeiristas durante a roda. Quando é dito que o capoeira é mandingueiro, quer se dizer que é um jogador malicioso, que utiliza de diversos movimentos para ludibriar o seu oponente. Isto é visto com bons olhos durante a roda da capoeira, a malícia é incentivada, caracterizada como a demonstração da agilidade e esperteza dos jogadores durante a prática. Portanto a “mandinga” tem duas definições centrais, uma é o seu caráter “mágico” e ritualístico da proteção de seus ancestrais aos perigos da vida, mantendo o “corpo fechado” do capoeira. A segunda definição da “mandinga” é referente a malícia dos jogadores durante a roda de capoeira, estratégia que demonstra a sabedoria e agilidade em utilizar os movimentos do corpo para ludibriar e enganar o oponente a fim de encaixar golpes, malícia esta que auxilia na construção de um jogo de capoeira mais dinâmico e desafiador.


“As práticas sociais malandras dos capoeiras estão registradas de forma simbólica especialmente naquilo que eles próprios chamam de mandinga, e que sintetiza as principais qualidades de um bom jogador. O ( ZONZON, CN. Capoeira Angola: africana, baiana, internacional. In: MOURA, M. A larga barra da baía: essa província no contexto do mundo [online]. Salvador: EDUFBA, 2011, pp – 149.)capoeira mandingueiro tem jogo de cintura, malemolência, esperteza, sabe aplicar um golpe sem atingir o adversário e vence a luta na falsidade.” A importância portanto da manutenção, e de certa maneira também um resgate eligioso, como fundamento essencial da prática angoleira. Tem como objetivo a reafirmação da proximidade de tradições ritualísticas do passado em nosso presente. Desta forma, mediante a prática religiosa, procura-se da mesma maneira possibilidades de resistência, visto que as religiões de matrizes africanas sofrem sistematicamente atos de intolerância religiosa e tentativas de apagamentos, como se vê evidente na “demonização” de qualquer prática religiosa diferente da hegemônica cristã conservadora. Portanto o papel da capoeira angola como caminho de pertencimento identitário, no resgate do exercício de outras tradições e ritos religiosos, que historicamente foram perseguidos em nossa sociedade. Ganha assim relevância como um movimento político de sobrevivência, não somente angoleira e da capoeira, mas de todas as práticas e heranças advindas do continente africano.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tentamos no presente texto apresentar alguns conceitos amplos da capoeira angola, prática complexa e repleta de simbolismos e conceitos. Uma roda de capoeira vai além dos movimentos corporais e da competitividade aparente entre os capoeiristas durante o jogo, na realidade a prática angoleira tem em sua base um modo de vida, uma filosofia própria inserida em uma coletividade. Gerando uma solidariedade entre seus praticantes, de acordo com Decanio Filho:


…a capoeira baiana é…
…sobretudo, um modo de viver…
….uma filosofia baseada na liberdade individual…
…na alegria…
…no respeito…
…na cooperação…
…na camaradagem…
…no espírito comunitário…
…integrando assim o homem na sociedade…
(Cartilha Salvaguarda da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres de Capoeira: Apoio e Fomento. Brasília/DF: IPHAN,2017. p. 7) disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Car tilha_salvaguarda_capoeira.pdf

A capoeira é a construção coletiva de resistência, da ideia de pertencimento identitário entre os capoeiras, bem como a passagem de conhecimentos e saberes, tanto entre mestres e alunos como também a própria experiência durante a prática. Na linhagem angola percebemos além do caráter coletivo de solidariedade, uma relevância principal na ancestralidade africana e na conservação de tradições e memórias. Papel representado na figura dos mestres, a capoeira torna-se nesse sentido uma ferramenta de combate. Não somente aos preconceitos sofridos ao longo dos anos, mas também ao esquecimento. A capoeira angola como construção de uma memória ativa e coletiva de conhecimentos, tradições e ancestralidades. Auxiliando no reconhecimento identitário de seus praticantes, como também em seu protagonismo principal de uma construção filosófica da vida, da mesma forma a relevância dos capoeiras no resgate de memórias bem como das ancestralidades em comum. Todos esses objetivos e conceitos podem ser conquistados mediante a possibilidade de prática da capoeira angola na sociedade.

REFERÊNCIAS
BRITO, Celso. GRANADA, Daniel. (orgs). Cultura, política e sociedade: estudos sobre a capoeira na contemporaneidade. Teresina. EDUFPI. 2020.
CAMPOS, Hélio. Capoeira Regional: a escola de mestre Bimba. EDUFBA. 2009.Cartilha Salvaguarda da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres de Capoeira: Apoio e Fomento. Brasília/DF. IPHAN. 2017.
DECANIO, A, Angelo. A herança de Pastinha. coleção são salomão 3, 2 edição. Salvador. 1997.
DIAS, Adriana, Albert. A mandinga e a cultura malandra dos capoeiras (Salvador, 1910-1925). Revista de História, 1, 2 (2009).
MACEDO, P, R, Ana. O Misticismo e sua (re) significação – um estudo através das Cantigas da Capoeira Angola. ANPUH XXIV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – 2007.
Roda de capoeira e ofício dos mestres de capoeira. Dossiê IPHAN 12. Brasília/DF. IPHAN. 2014.
TAMPLENIZZA, Cecilia. Capoeira angola: corpo, arte e conhecimento. Extraprensa, São Paulo, v. 12, n. 1, p. 189 – 210, jul./dez. 2018.
ZONZON, N,Christine. A roda da capoeira angola, os sentidos em jogo. Salvador. 2007.
ZONZON, N,Christine. Capoeira Angola: africana, baiana, internacional. In: MOURA, M. A larga barra da baía: essa província no contexto do mundo [online]. Salvador: EDUFBA, 2011

MESTRE KUNTA: PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE


Nathália Selau


Mestre Kunta Kintê da Bahia: Geraldo Xisto Gonçalves, uma história de resistência “Capoeira angola para mim é simplesmente meu jeito de ser, meu jeito de viver” Geraldo Xisto Gonçalves nasceu em 3 de abril de 1960, em Mendes Pimentel, Minas Gerais. Cresceu em um ambiente de grande sociabilidade, em uma família numerosa e pouco estruturada financeiramente – motivo que o fez abandonar sua cidade natal. Morou em muitos lugares durante o seu crescimento, como na Bahia e em São Paulo. Na capital paulista , chegou aos 9 anos, com caronas na estrada. Durante algum tempo precisou viver nas ruas, sem seus pais, realizando pequenos trabalhos, como a venda de doces, para conseguir prover sua alimentação diária. Em tal cenário, em meados de 1970, o mesmo teve seu primeiro contato com a capoeira em um evento de uma escola de samba chamada ‘Vai-Vai’, na Avenida Paulista. Reencontra cantigas de roda e brincadeiras que estiveram presentes na sua infância e isso, por sua vez, acaba por encantar o jovem Geraldo Gonçalves, que, por sua vez, entra em contato com Mestre Zumbi e, assim, passa a treinar e frequentar regularmente as rodas de capoeira. Com treze anos, ganha certo reconhecimento como capoeirista na comunidade paulista, encontrando essa como sua chance de sobrevivência na cidade grande.


Alguns meses depois, o mesmo forma um grupo intitulado Ginga Aê Camará, “nome que era como um convite para quem se aproximava da roda” (PORTO, 2010, p. 131), junto aos colegas Negro Aroeira, Roque, Caveira, Dragãozinho e Paraíba, como forma de arrecadar certa renda financeira. Os capoeiristas apresentavam-se inicialmente em vários locais, depois fixam-se a Praça da Sé e, a partir daquele momento, a capoeira possibilita ao Mestre Kunta não precisar mais dormir nas ruas, hospedando-se em hotéis – principalmente devido às contribuições realizadas pelos estrangeiros e migrantes. Todavia, nem só vantagens trouxe a formação do grupo. Quatro dias após a primeira apresentação, os componentes foram presos pelo código de vadiagem por jogarem capoeira na rua. As perseguições policiais e a violência tornaram-se frequentes, refletindo, entre outros fatores, o cenário do Brasil naquele momento, o qual enfrentava as mazelas da ditadura civil-militar, iniciada em 1964.


Após o casamento do Mestre Kunta com Luzia, capoeirista também deveras talentosa, o ‘Ginga Aê Camará’ se desfez. Assim, “o casal começou a andar pelo mundo, fazendo apresentações em dupla” (PORTO, 2010, p. 132), e dessa forma continuaram até 1996, quando decidem fixar-se em São José dos Pinhais, no Paraná, trazendo junto toda a família – que era também numerosa e ainda habitava em São Paulo. Em 1997, MestreKunta abre uma academia própria e começa a dar aulas de Capoeira Angola, mas essa logo fecha devido à ignorância e à falta de educação, tanto da população em geral quanto daqueles que detinham o poder, os quais evidenciam lacunas significativas no sistema vigente. Então, Mestre Kunta e sua esposa decidem fundar o CECAB, Centro de Estudos da Cultura Afro-Brasileira, com a intenção de compartilhar com a região certo conhecimento, oferecendo uma oportunidade mais ampla de conhecer a cultura negra.

Ademais, Mestre Kunta decide especializar-se, conquistando o título de graduado em Educação Física, a fim de atingir também as vias institucionais e internas do Estado, realizando projetos em parceria com a prefeitura do município. Segundo esse, a capoeira na região mencionada carecia de uma ligação com um contexto social, apresentando forte preconceito, clara desconexão com as questões de identidade e ancestralidade. Focava-se, portanto, apenas nessa enquanto luta e não como uma forma política de organização, contrário a ideologia do Mestre, que almejava abordar a Capoeira Angola através do conhecimento e da educação das raízes da cultura afro-brasileira.
No final de 2015, foi realizada a renovação do Comitê Gestor da Salvaguarda da Capoeira no Paraná, quando as eleições foram descentralizadas para quatro macrorregiões como forma de ampliar a participação. Assim, foram eleitos nove membros, dois de cada macrorregião e um da Região Metropolitana de Curitiba, além de nove suplentes, sendo que dois membros foram indicados para atender aos critérios de diversidade da Capoeira.


Mestre Kunta Kintê foi o indicado da Região Metropolitana de Curitiba e, enquanto membro da segunda gestão do Comitê Gestor, e, como ele mesmo contava, em um primeiro momento, quando era convidado para as reuniões do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), “levava um saco de pedras”, a fim de entrar na briga sem usar o corpo efetivamente. Depois, passou a ser um dos mestres mais atuantes junto ao IPHAN, mesmo não tendo participado da primeira gestão. Defendia-se, entretanto, que apesar de importantes, tais políticas não devem ser as únicas executadas – caso contrário, a relação fica apenas no título, sem atingir a população efetivamente. Inclusive, por conta de tal crença, Mestre Kunta executava, com frequência, eventos que visavam reunir diversos mestres de capoeira com a comunidade local, a fim de compartilhar o conhecimento e desmistificar cada vez mais os pré-conceitos relacionados à capoeira, oferecendo a muitos indivíduos uma oportunidade, antes de tudo, de pertencimento. Ademais, criava-se uma rede de apoio entre os mestres, pois todos sabiam que as oportunidades de um, em outro momento seria a de todos, contribuindo-se, assim, para um futuro melhor, de maior solidariedade e empatia com o próximo.

CURIOSIDADES
● A origem do nome Mestre Kunta Kinte remete a uma série televisiva norte-americana, de 1977, intitulada ‘Raízes’. A trama contava a história de uma família de indivíduos escravizados, sequestrados na África e enviados aos Estados Unidos. Entre esses, tinha-se como papel principal o retrato do corajoso Kunta Kinte, um guerreiro que nunca abandonava a sua fé, resistindo e reivindicando sua cultura e ancestralidade. No Brasil, a série foi exibida pela Rede Globo no final da década de 1970 e reprisada pelo SBT na década seguinte, atingindo elevados índices de audiência em ambas as ocasiões.
● A capoeira no Brasil, desde seus primórdios, sofreu grandes repressões. Até a abolição da escravidão, aqueles que fossem encontrados realizando tais práticas eram condenados a chicotadas e prisões, mas essa ainda não era considerada um crime de forma direta. Entretanto, em 1890 a capoeira passa a ser inserida no código penal brasileiro, por meio do Decreto n° 847, permanecendo assim até meados de 1930.

REFERÊNCIAS
PORTO, Liliana. Curitiba entra na roda: presença(s) e memória(s) da capoeira na capital paranaense. Curitiba, 2010.