Gilberto Martins Gondro
O patrimônio cultural legado pelos imigrantes poloneses está presente no dia a dia do povo brasileiro. Essa influência pode ser percebida através da religiosidade, dos costumes, das tradições, da culinária, das festas, etc.
Além disso, uma das formas mais expressivas dessa cultura milenar, que encanta os olhos e ouvidos (e o coração) são as danças folclóricas “Polonez” e “Krakowiak”. Essas danças fazem parte do repertório do Wawel – Grupo Folclórico Polonês de Colônia Murici, de São José dos Pinhais / Paraná.
Foi nesse grupo que pude presenciar a agenda e a rotina dos eventos culturais e religiosos da Colônia Murici. E, depois, através de leituras e pesquisas, percebi que o Grupo Wawel foi o resultado de um trabalho semeado pela “Polonidade”, ou seja, pelo sentimento que uniu os colonos poloneses em torno da Igreja Católica.
Possivelmente, esse sentimento surgiu (ou ganhou força) devido à partilha da Polônia pelos seus vizinhos europeus. Pois, aconteceu que a Polônia do final do século XIX estava dominada e dividida entre a Prússia, Áustria e Rússia. (Marochi, 2013 pág. 60) Por isso, os poloneses tiveram seus direitos restringidos, não podiam participar da administração pública e das instituições sociais, ocasionando assim a diáspora polonesa pelo mundo. (Wachowicz, 1981 pág.61)
Porém, a única instituição ao qual o polonês estava familiarizado e que o aceitava era a Igreja Católica. Por esse motivo, na paróquia os poloneses se sentiam felizes e satisfeitos, podiam participar das organizações paroquiais e eram solicitados pelo padre, que os conhecia pelo nome. Segundo o historiador Ruy C. Wachowicz: “Ali ele era gente, era alguém, sentia-se à vontade.” (Wachowicz, 1981 pág.61)
Portanto, houve uma forte ligação afetiva da nação polonesa com a Igreja Católica, muito bem expressada pelo bispo polonês Teodor Kubina: “Fundiram-se de tal maneira que a noção de catolicismo e polonidade tornaram-se sinônimos”. (Wachowicz, 1981 pág.61)
Segundo Colnaghi, foi o Padre Karol Dworaczek(1867-1919) o primeiro sacerdote de origem polonesa que se dedicou em tempo integral aos colonos de Colônia Murici (fundada em 1878). Além de exercer as funções pastorais, Padre Karol cooperou também com o sentimento de patriotismo, mantendo a cultura vinculada às suas origens. (Colnaghi, 1992 pág. 95)
Então, historicamente, a conservação das tradições polonesas na Colônia Murici, ficou intimamente ligada à Igreja Católica, que com o passar dos anos possibilitou a construção e a manutenção do patrimônio material e imaterial na comunidade. Desta forma, a preservação de eventos culturais, nacionais e religiosos relacionados à antiga pátria, contribuiu para a necessidade de se criar oficialmente um grupo folclórico.
Todavia, isso somente aconteceu na ocasião das comemorações do Milênio Cristão da Polônia em1966, quando houve a apresentação de grupos folclóricos vindos de Curitiba, que acabou incentivando os muricianos a criarem o seu próprio grupo folclórico. (Turbanski, 1978 pág. 198) Na sequência, com os incentivos do Padre AlojzyWiatrok (1932-2020) e com a vinda da Irmã Felicidade Leocádia Modłkowska (1920-1976), que ensinava cantos e danças em escolas, tem-se então, a fundação do Grupo Folclórico de Murici, em 20 de fevereiro de 1970, conforme registrado no atual estatuto social do grupo.(Wawel Grupo Folclórico Polonês, 2018 pág. 02)
Inesperadamente em 1976, faleceu a Irmã Felicidade, sendo o grupo folclórico confiado à Irmã Anita Emília Cochinski, que para as apresentações do centenário da colônia (1978) emprestou alguns trajes de Krakowiak do Grupo Wisła de Curitiba.Após o centenário, o grupo passou a ser orientado pelo coreógrafo Paulo Scardzan Heeren, que era um dos integrantes do Wisła.(Turbanski, 2005 pág. 72).
Aconteceu que no início dos anos 1980 o Paraná recebeu a visita do papa polonês João Paulo II (Karol Józef Wojtyła). (Turbanski, 2005 pág. 135) Nesse evento, alguns integrantes do jovem grupo tiveram a oportunidade de saudar o pontífice, cantando em um coral formado pela comunidade polonesa. (Maria M. Greboge e Janete R. Hallu); (Gondro; Sary, 2020)
Passado alguns anos, no final de 1987, o pároco da época José Bestwina retornou de uma viagem que fizera à Polônia e presenteou o grupo com 06 (seis) pares de trajes originais de “Krakowiak”. Por isso, houve reuniões para que o grupo se apresentasse na 2ª edição da Festa da Colheita, que aconteceria no início do ano de1988. (Turbanski, 2005 pág. 75)
Em seguida, foram feitas reuniões para eleição da diretoria, escolha de um nome para o grupo, entrada de sócios, formação de estatutos, vinculação com a igreja, contratação de professor, etc. (Josefa Grebogi); (Turbanski, 2005 pág. 74) Também nesta reunião, foi sugerido pelo Padre José Bestwina (aclamado como Diretor Geral) o nome de Wawel para o grupo, fazendo referência ao Castelo de Wawel na cidade de Cracóvia (Kraków). (Turbanski, 2005 pág. 76)
Naquele mesmo ano, a Colônia Murici recebeu a visita de uma equipe de televisão da Polônia, acompanhados por dois jornalistas de Curitiba. O Wawel fez parte deste documentário, sendo filmado o ensaio de algumas danças e um passeio em carroça polonesa (Turbanski, 2005 pág. 114 e 133) Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=vyPZ_O4eEqQ
Mais tarde, em agosto de 2000, o grupo recebeu a visita da coreógrafa polonesa: Danuta Deptuła, que passou um ano na colônia, ensinando cantos e danças para as crianças e os jovens do grupo. Foi também neste período que foi idealizado o “Festival de Dança e Cultura Polonesa”, no mês de novembro, e o jantar dançante: “Noite Polonesa” (Baile da Wodka), no mês de julho. Estes eventos obtiveram sucesso e passaram a integrar o calendário de eventos do Município de São José dos Pinhais. (Maria Lúcia Zen); (Turbanski, 2005 pág. 78)
Além das apresentações realizadas em festivais de outros municípios e até outros estados, o Grupo Wawel realizou o sonho de participar de excursões internacionais, quando participou em 2005 e 2008 do Festival Folclórico de Grupos Polônicos, na cidade de Rzeszów, na Polônia. Aliás, para o evento de 2005, os integrantes não apenas ensaiaram para as performances clássicas da cultura polonesa, mas tambémas danças: gaúcha, samba e frevo. (Metrópole, 2005)
Com a aproximação do cinquentenário do grupo (2020), os integrantes do Wawel prepararam uma grande agenda de apresentações e comemorações, incluindo também a participação em eventos do calendário religioso (benção das cestas de Páscoa – “Święconka”, Nossa Senhora de Częstochowa e da festividade natalina – “Jasełka”) e dos 150 anos da imigração polonesa no Brasil. Neste período o grupo foi atendido pela coreógrafa Paula Celli (2015 a 2019), e depois pelos próprios dançarinos do grupo. (Wawel, 2019-2020)
Finalmente, aconteceu que nos últimos anos, o grupo ficou por um pequeno período sem se reunir devido à pandemia de Covid. Mas logo que passou a crise retornou paulatinamente às atividades, inclusive com aulas de idioma polonês. Assim podemos concluir que o Grupo Wawel enfrentou muitas dificuldades, mas resistiu, cresceu e amadureceu. E atualmente, além dos filhos da Colônia Murici, o Wawel recebe com muito carinho as pessoas de outras localidades, raças, credos e etnias em seu conjunto. Deste modo, ajuda a promover a família, a religião, os bons costumes e a cultura.
AS DANÇAS POLONEZ E KRAKOWIAK
No folclore polonês as danças estão divididas em nacionais e regionais. Assim, segue abaixo uma pequena descrição das danças Polonez e Krakowiak, que são consideradas danças nacionais, descritas por Lenís Paola Sary, dançarina e coreógrafa do Wawel:
POLONEZ
Considerada a mais antiga dança nacional, as origens do polonez remontam ao século XVI e XVII, quando era dançado pelas camadas mais baixas da sociedade polonesa, na época, chamado de Chodzony, palavra que deriva do verbo “chodzić”, que significa andar em polonês. O passo básico do polonez é o compasso ternário mediano, no qual a primeira batida é acentuada com um passo mais longo (com uma ligeira flexão dos joelhos) e é seguida por dois passos mais curtos com uma posição mais reta do corpo.
(…) a dança popularizou-se em toda a Europa, sendo aí que surgem termos como Polonez, Polonaise, Polacca, emprestados do francês. (…)
O Polonez dançado pelo Grupo Folclórico Wawel, e por outros grupos folclóricos poloneses em geral, chama-se Polonez Powitalny, que significa Polonez de Boas-vindas. Esse Polonez categoriza-se pela entrada do pão e sal durante a dança, e foi criado especialmente para os grupos folclóricos, já que essa entrada não estava presente nos outros polonez, unindo à dança uma outra antiga tradição polonesa, e por isso, geralmente é a dança de abertura das apresentações.
Música usada: Polonez Ludowy, Polska Kapela Ludowa Feliksa Dzierzanowskiego.
Dança disponível em: https://youtu.be/edwYCbpZEko?feature=shared
KRAKOWIAK
Krakowiak é uma dança animada e improvisada com ritmo sincopado (caracterizado pela execução de som em um tempo fraco que se prolonga até um tempo forte). Não sabe-se ao certo as origens dessa dança, mas há estudiosos que acreditam que elas remontem aos séculos XVI e XVII.
(…) É uma dança de origem também camponesa, dançada nos arredores de Cracóvia, antiga capital da Polônia que fica na região central da Małopolska (Pequena Polônia). (…)
Com seu ritmo alegre, dançada geralmente em vários pares, esta dança conta com passos característicos como o Galop e o Hołubiec. Seus passos imitam a agilidade dos cavalos, animais muito usados na região tanto para o civil quanto para o militar, sendo que há sempre um par principal que guia o restante.
As danças de krakowiak podem ter variações que remetem a acontecimentos históricos, como por exemplo, o Lajkonik, que remete a uma vitória dos poloneses contra os bárbaros, que após derrotá-los, voltam à cidade vestidos como um deles e com seu cavalo, comemorando a vitória dançando. Outra variação é o Krakowiak Kosynierów, que significa krakowiak com foices. Essa dança remete à participação dos camponeses de krakowiak na Revolta de Kościuszko em 1794, que visava a libertação da Polônia e Lituânia da influência russa e prussiana. Durante a revolta, camponeses da região usaram trajes característicos de krakowiak, como as Sukmanas brancas e, como arma, usaram as foices. (…)
O traje de Krakowiak mais conhecido é o Krakowiak Zachodni, onde as mulheres usam camisas com mangas longas e bufantes, saias floridas com um avental de renda branco ou com padrões floridos, um colete ricamente bordado com lantejoulas, miçangas, pompons, etc., colar de contas de corais e uma coroa de flores com longas fitas. Os homens usam camisas brancas com coletes pretos ou azul-marinho, uma calça de listras brancas e vermelhas, um cinto largo de couro com fivelas e pequenas placas de metal, com uma boina losangular com penas de pavão.
O grupo Wawel tem em seu acervo diversos trajes de Krakowiak, para as categorias infantil, juvenil e adulto. Também tem coreografias de Krakowiak para estas três categorias, bem como o Lajkonik, e uma coreografia de Krakowiak Kosynierów. Padre José Bestwina presenteou o Grupo Wawel com seis pares de trajes originais de Krakowiak em 1988, após retornar de uma viagem à Polônia. (SARY, 2020)
Dança disponível em:
https://youtu.be/SGUFEcwr23U?si=ol0TjaO_WCzR4PQf e
https://www.instagram.com/tv/CpsZo65NWBe/?igsh=MXI4aGU0aWdqNm1wdA==
Analisando a trajetória do Grupo Folclórico Wawel, é evidente um histórico afeto pela cidade de Cracóvia (Kraków), antiga sede da realeza polonesa. Desde aos primeiros trajes, ao nome oficial, às coreografias, às lendas do dragão e dos defensores de Cracóvia, demonstram que a dança Krakowiak é uma das principais do repertório do grupo muriciano, mesmo apresentando, também outras danças.
Por sua vez, em 2023, o Ministério da Cultura e do Patrimônio Nacional da Polônia solicitou a inclusão da Polonaise (ou Polonez) na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).(Wrzesień, 2023) Deste modo, espero que a dança guerreira Krakowiak também possa, um dia, fazer parte da lista do patrimônio imaterial daUNESCO, simbolizando a liberdade dos povos.
REFERÊNCIAS
COLNAGHI, Maria Cristina; MAGALHÃES FILHO, Francisco de Borja Baptista de; MAGALHÃES, Marionilde Dias Brepohl de. São José dos Pinhais: a trajetória de uma cidade. Curitiba: Prephacio, 1992.
GONDRO, Gilberto Martins; SARY , Lenís Paola. Grupo Folclórico Polonês de Murici – Wawel: 50 anos de tradição, cultura e religiosidade (1970 – 2020). São José dos Pinhais, PR. 2020 – (Inédito)
IAROCHINSKI, Ulisses. Saga dos Polacos. Curitiba: Do Autor, 2000.
MAROCHI, Maria Angélica. Imigrantes 1870-1950: Os Europeus em São José dos Pinhais. São José dos Pinhas: Edição da Autora, 2013.
METRÓPOLE SÃO JOSÉ DOS PINHAIS. Grupo Wawel embarca para a Polônia hoje. São José dos Pinhais, Ano 6, Ed. 989, 15/Jul/2005. Cultura I, p. 03 – Recorte de Jornal. (Disponível na Biblioteca Scharfenberg de Quadros)
TURBANSKI, Stanislaw. Murici: terra nossa. Curitiba: Vicentina, 1978. v. I: 1878-1978.
TURBANSKI, Stanislaw. Murici: terra nossa. Curitiba: Amaro, 2005. v. II: 1978-2003.
WACHOWICZ, Ruy Christovam. O camponês polonês no Brasil. Curitiba, PR: Fundação Cultural, 1981.
WAWEL FOLCLORE POLONÊS. Artes e entretenimento. São josé dos Pinhais. Facebook: grupowawel. Disponível em: https://www.facebook.com/grupowawel/?ref=page_internal.
WAWEL GRUPO FOLCLÓRICO POLONÊS. Estatuto Social. Colônia Murici, 2018.
WAWEL GRUPO FOLCLÓRICO POLONÊS. Relatórios 2019, 2020.
WRZESIEŃ, Ida.A polonaise recebeu um certificado da UNESCO. Adam MickiewiczInstitute,Varsóvia, 22/03/2024. Disponível em:https://iam.pl/en/the-polonaise-has-received-a-unesco-certificate
