Manoel de Campos Almeida
*Publicado originalmente no Boletim do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.
A Casa Garibaldi foi a primeira casa comercial importante de São José dos Pinhais e concretizou o sonho de Pedro Chiuratto. A família Chiuratto partiu de Gênova em 22 de novembro de 1888, a bordo do “Piroscafo Birmânia”, do Compartimento Maritimo di Genova, com destino ao Rio de Janeiro. Durante a 1ª Guerra Mundial o Piroscafo Birmânia foi afundado em 20 de maio de 1916 pelo submarino UB 21, comandando pelo Comandante Hersing.

Casa Garibaldi. Foto do acervo do Museu Atílio Rocco
A Casa Garibaldi foi a primeira casa comercial importante de São José dos Pinhais e concretizou o sonho de Pedro Chiuratto. A família Chiuratto partiu de Gênova em 22 de novembro de 1888, a bordo do “Piroscafo Birmânia”, do Compartimento Maritimo di Genova, com destino ao Rio de Janeiro. Durante a 1ª Guerra Mundial o Piroscafo Birmânia foi afundado em 20 de maio de 1916 pelo submarino UB 21, comandando pelo Comandante Hersing.
O navio, capitaneado pelo Comandante Serrati, chegou ao Rio de Janeiro em 15 de dezembro de 1888, com 1205 passageiros. Três passageiros pereceram durante a longa viagem de 23 dias. Uma criança nasceu abordo. Desses passageiros 99 se destinavam ao Paraná. Ao chegarem foram acolhidos na Hospedaria dos imigrantes da Ilha das Flores, que tinha capacidade de receber até 3500 pessoas.

Registro de entrada da família Chiuratto: no Rio de Janeiro (Arquivo Nacional); no Paraná (Arquivo Público do Paraná)
A Hospedaria localizava-se na Ilha das Flores, no estado do Rio de Janeiro, no Brasil. A área até 1890 pertencia ao município de Niterói, a partir de então, com a emancipação de São Gonçalo, passou a fazer parte deste município. Constituía-se numa hospedaria de imigrantes instituída pela então “Inspetoria de Terras e Colonização” do Ministério da Agricultura, em 10 de maio de 1883, segundo alguns documentos; sabe-se, porém, que o primeiro livro de Registro de Imigrantes é datado de 1877. Foi desativada em 1966, sendo ocupada pela Marinha do Brasil.
A viagem para o Brasil durava de entre 20 e 30 dias, onde os imigrantes, muitas vezes empilhados nos vapores, permaneciam infectados, sujos, maltrapilhos e miseráveis. Na Ilha, um dos primeiros pontos onde desembarcavam no Brasil, eram despejados em um pavilhão ao acaso, arrumando-se como podiam. A justificativa apresentada para tal recepção aos imigrantes era que a Hospedaria possuía instalações perfeitas para abrigá-los, uma vez que estes permaneceriam apenas alguns dias no local.
Com o passar do tempo, e a constante chegada de imigrantes, ocorreram mudanças significativas nas condições de acolhimento na Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores, sendo inclusive considerada
como “repartição modelo”, por sua estrutura e organização. Os pavilhões que alojavam os imigrantes tornaram-se mais limpos, claros e espaçosos.
Cada grupo de imigrantes de uma mesma nacionalidade passou ocupar um único alojamento. Os imigrantes só seguiam para o seu destino após inspeção médica, sendo mantidos na Hospedaria por um período de no máximo 10 (dez) dias.
Os imigrantes recém-chegados tinham destinos variados: uns vinham com o trabalho garantido no interior do País; outros conseguiam encaminhamento por intermédio do Diretor do Povoamento do Solo que levantava a origem, a cultura e o tipo de trabalho que o imigrante estava habituado em seu país de origem.
Logo em seguida os Chiuratto embarcaram para Paranaguá. Pedro Chiuratto, com então 16 anos, juntamente com seu irmão Ângelo Chiuratto (com 25 anos), sua esposa Maria Chiuratto (com 24 anos) e seu filhinho Ângelo Chiuratto (com 9 meses), chegaram em Paranaguá em 20 de dezembro de
1888, com destino a Curitiba. (1).
Os Villatore chegaram ao Rio de Janeiro em 26 de novembro de 1888, saíram dali em 19 de novembro de 1888, com destino a Curitiba. Carolina Villatore (com 14 anos) chegou ao Paraná em 1888, juntamente com seus pais Sebastiano Villatore (52 anos), sua mãe Teresa Villatore (48 anos), e seus irmãos Angelo Villatore (12 anos), Anna Villatore (10 anos), Innocente Villatore (11 anos), e seus tios Natalina Villatore (47 anos) e Luigi Villatore (48 anos).(2)
Por capricho do destino, Pedro e Carolina chegaram no Paraná praticamente ao mesmo tempo, ele com 16 anos, ela, com 14. De Paranaguá, tanto os Chiuratto como os Villatore subiram de carroça ou pela estrada de ferro a Serra do Mar, com destino a Curitiba, onde se abrigaram brevemente na Hospedaria dos Imigrantes. De Curitiba seguiram para seu destino final, São José dos Pinhais, em busca das sonhadas terras prometidas.
O belo e minucioso trabalho de Maria Angélica Marochi (3) permitiu-me identificar seu destino final: a Colônia Silveira da Motta, criada em 1888, a qual, entre todas as colônias criadas em São José, foi a única municipal. Suas terras foram distribuídas em 32 lotes, que eram propriedade da Câmara Municipal de
São José dos Pinhais, as então denominadas “Terras do Rocio”. De acordo com o “Livro Número 1 de Registro de Cartas de Aforamento dos Terrenos do Rocio da Câmara Municipal de São José dos Pinhaes” a distribuição das terras teve início em 1889.
Em 1889, neste primeiro ano apenas 13 famílias receberam suas terras: Domingo Franchetto, Santo Franchetto, José Zaniolo, Luigge Villatore, Paolo Berho, Domingo Vidolin, Sebastião Villatore, Ângelo Chiuratto, Ângelo Daniel, Pedro del Carbonare, Giuseppe Securo, Luigi Securo e Giovani Canalli.
Os lotes tinham, em média, oito hectares, estando localizados entre o centro da vila e a margem esquerda do Rio Iguaçu. A antiga estrada que ligava São José à Curitiba, passando pelos bairros do Xaxim e do Portão, cortava a colônia. Ângelo Chiuratto recebeu inicialmente 37 litros de terra, se considerarmos 40 litros por alqueire, recebeu pouco menos de um alqueire de terras. As duas famílias tinham lotes de frente para a estrada da capital, vizinhos portanto, ou quase.
Tanto os pais de Carolina como irmão de Pedro, Ângelo, receberam seu respectivos lotes. Nos anos seguintes a colônia recebeu as famílias italianas de Pedro Chiuratto, Pedro Carbonaro, Manoel Tamboze, José Foggiato,, André Sicuro, Ângelo Pallu e Silvano Moreschi.
A Câmara Municipal, em 1889, emitiu as seguintes cartas de aforamento dos terrenos do Rocio: em12 de julho de 1889, Ângelo Chiuratto recebeu “ três cartas de terrenos com frente para a estrada da capital na Colônia Silveira da Motta, recebe mais ou menos 37 litros e terra”.; Sebastião Villatore recebe 12 de julho de 1889 lote “de frente para a estrada da capital e fundo para o ribeirão do Cabral”; Luigge Villatore recebe em 12 de julho de 1889 “tres cartas de frente para a estrada da capital e fundo com a estrada do porto da Ania”(3). Todas as cartas de aforamento foram emitidas na mesma data. Vizinhos, chegados na mesma data, não é surpresa que Pedro e Carolina se conhecessem e se enamorassem.
A enfiteuse ou aforamento é instituto do Direito Civil e o mais amplo de todos os direitos reais, pois consiste na permissão dada ao proprietário de entregar a outrem todos os direitos sobre a coisa de tal forma que o terceiro que recebeu (enfiteuta) passe a ter o domínio útil da coisa mediante pagamento de uma pensão ou foro ao senhorio. Assim, pela enfiteuse o foreiro ou enfiteuta tem sobre a coisa alheia o direito de posse, uso, gozo e inclusive poderá alienar ou transmitir por herança, contudo com a eterna obrigação de pagar a pensão ao senhorio direto, no caso, a Câmara Municipal.
A colônia era cortada pela antiga estrada que ligava a “Villa de São José dos Pinhais” com Curitiba. Nos fins do século XIX a Cãmara Municipal resolve distribuir novas cartas de aforamento, em terrenos próximos à colônia ou ao redor do pequeno centro urbano da vial. A a maioria desdesses lotes foi
adquirida por imigrantes italianos; entre os quais as famílias: Chiuratto, Villatore, Bortolin, Pissaia, Follador, Victoretto, Bortolotti, Bianchetti, Moreschi, Tudeschi, Marquezini e Seccuro.
A enfiteuse prestou relevantes serviços durante a época do Brasil Império com o preenchimento de terras inóspitas, incultas e inexploradas, que eram entregues ao enfiteuta para dela cuidar e tirar todo o proveito. Ao foreiro eram impostas duas obrigações, uma está no dever de pagar ao senhorio uma
prestação anual, certa e invariável denominada foro, cânon ou pensão; e a segunda obrigação está em dar ao proprietário o direito de preferência, toda vez que for alienar a enfiteuse.
Essa distribuição de terras, através de Cartas de Aforamento, contribuiu para que o centro de São José fosse quase todo povoado por famílias de origem italiana. A expansão territorial do Paraná muito se deveu às essas Cartas de Aforamento concedidas ou pelo Governo Provincial ou pelas Câmaras Municipais. Extensas áreas de terras devolutas eram distribuídas, o que originou a fortuna de muitas famílias tradicionais paranaenses e de seus descendentes, durante o século XX e mesmo até o presente.
Aos 8 de abril de 1891, Pedro Chiuratto, com 20 anos, casa com Carolina Elisa Villatore, então com 19 anos, na Igreja Matriz de São Jose´. Foram testemunhas: Alberto Berton e José Lazari. Começa então a saga do principal comerciante de São José nos princípios do século XX..


Carolina Elisa Villatore Chiuratto e Pedro Chiuratto. Coleção do autor.
Dentro do espaço urbano da vila Pedro recebeu sua Carta de Aforamento em 1898 e Ângelo em 1889. Nessa ocasião, aproveitando a oportunidade, Pedro Chiuratto adquiriu um local muito favorável, ao lado da Matriz, na rua XV de Novembro, e inicia sua verdadeira vocação: comerciante.
Ao invés de cultivar a terra, optou por fazer negócios. Pedro funda então a “Casa Garibaldi”, na Rua XV de Novembro, inaugurada em 1890, empreendimento ousado para um jovem de 20 anos. Seu crescimento, registra Marochi, se deu, entre outros fatores, devido à enorme variedade de produtos ofertados e à sua localização privilegiada, pois funcionava bem ao lado a Igreja Matriz, local com um enorme trânsito.
Os imigrantes, italianos ou não, sabiam que a vida no campo era difícil, dada sua sofrida experiência na Europa. Muitos optaram pelo espaço urbano e seus arredores, onde ali acreditavam, que se não fosse possível abrir seu próprio negócio, ao menos conseguiriam um emprego assalariado. Essa certamente foi a motivação do jovem Pedro Chiuratto ao se lançar em seu empreendimento.
Os sobrados de Pedro Chiuratto sobrevivem até o presente, embora extensamente reformados para atuarem como casas comerciais. Este trecho da Rua XV de Novembro atualmente está fechado para o tráfego de veículos, somente pedestres são permitidos.
Nos anos de 1950 foram loteadas as terras que eram da família de Ângelo Chiuratto, quando foi criada a Vila Nossa Senhora do Rocio.

A Casa Garibaldi. Pedro Chiuratto apresentando a enorme variedade de suas mercadorias. Foto do acervo do Museu Atílio Rocco
Antes de 1910 Pedro Chiuratto já tinha pago os impostos previstos por lei e recebido os títulos de posse definitivos de suas propriedades.
Em fins de 1893 principia a Revolução Federalista, já descrita em Capítulos anteriores. Três foram os principais episódios bélicos dessa campanha em terras paranaenses: as batalhas de Rio Negro, a batalha de Tijuca do Sul e o cerco da Lapa. Em janeiro de 1894, após ultrapassarem Rio Negro, as tropas rebeldes se dirigiram para o próximo bastião de defesa: Tijucas do Sul. Se ultrapassarem Tijucas, o próximo ponto importante antes da Capital, Curitiba, seria São José dos Pinhais.
Os habitantes de São José, preocupados com sua segurança, dados os relatos de cruéis degolamentos perpetrados pelos invasores, se mobilizaram sob a égide de lideranças locais, entre as quais de destacava Luiz Victorino Ordine. Entre seus habitantes, os italianos ali residentes não fugiram ao seu dever para com sua nova pátria, como outros o fizeram, engajando-se entre os 200 elementos da Guarda Nacional (de São José, Lapa e Curitiba). Esse grupo agregou-se a outros, constituindo assim os 680 bravos que ali lutaram.
O comando dessa tropa foi designado ao tenente-coronel Ismael Lago; entre outros que ali combateram destacamos o engenheiro Hercílio Luz. Entre os tenentes encontramos Pedro Chiuratto1 e José Candido da Silva Muricy. Entre os sargentos encontramos José Zaniolo e Donato Bortolo Bortolin. Desnecessário frisar que Zaniolo e Bortolin eram grandes amigos de Pedro, mostrando assim a unidade de pensamento entre os italianos de São José. Em 17 de janeiro os defensores de Tijucas se renderam, pois estavam em desvantagem de aproximadamente três para um. Então Pedro e seus companheiros retornaram a São José.
Parte do sucesso da Casa Garibaldi se deveu a dois contratos, o primeiro deles foi com as autoridades imigratórias, quando assumiu a venda de diversas mercadorias para os recém-chegados imigrantes da Colônia Affonso Pena. (3)
A Colônia Affonso Pena foi criada pelo governo paranaense por meio do Decreto Nº 208, de 11 de julho de 1907, cujo artigo 1º reza: “A colônia modelo situada na fazenda Águas Belas, do município de São José dos Pinhais, denominar-se-á Affonso Pena”.
Sua extensão permitiu uma divisão com mais e 100 propriedades agrícolas, abrigando imigrantes italianos, poloneses, alemães, russos, franceses, belgas, suíços, noruegueses e holandeses. Em 31 de dezembro de 1908 nela haviam 112 lotes, 97 casas construídas e 93 famílias estabelecidas, perfazendo 465 pessoas, muito mais chegariam posteriormente. Em 1909 os franceses, suíços e noruegueses deixaram a colônia. Cada lote tinha aproximadamente 6 alqueires, ou seja, tinham 200 metros de frente por 750 de fundos.
No dia 7 de agosto de 1908 o Governo baixou, através do seu Ato Nº19, instruções, normas para a ocupação dos lotes. Essas instruções eram semelhantes às vigentes em outras colônias, com algum reforço para a prestação de serviços comunitários. Como ele é instrutivo para entendermos
como a vida nessas colônias se processava, como era seu Zeitgeist, transcrevê-lo-ei a seguir, com algumas observações explicativas:
Secretaria d’Estado dos Negócios de Obras Públicas e Colonização
ACTO N º19
1º – Os imigrantes permanecerão o menor tempo possível nos barracões. [isso no início, antes das construções das casas, N.A.]
2º – Entregue ao imigrante o lote que lhe foi designado assumirá logo a obrigação de cuidar do mesmo, desenvolvendo a cultura própria, recebendo para isso as indicações fornecidas por pessoa competente para este fim designada. [ o governo estava interessado nos ensinamentos do Instituto Agronômico].
3º – Além do trabalho agrícola do lote prestará o imigrante todo e qualquer serviço que lhe for reclamado para o desenvolvimento da colônia. [novidade visando incentivar o trabalho comunitário]
4º – Pelo serviço prestado será computada a diária de 3$000 réis ao chefe de família.
5º – Pela alimentação dentro dos seis primeiro mezes e até a colheita e venda dos produtos, o auxílio a que tem direito o immigrante será calculado a razão de 600 réis diários por adultos ou por maior de sete anos e de 300 réis por menor de três anos.
6º – A pessoa encarregada de dirigir o serviço na colônia possuirá um livro ponto onde lançará diariamente o nome do clono que prestar serviço a fim de poder ser regularizada a conta corrente do mesmo.
7º – A cada família cujo serviço haver sido apontado no livro e que se refere o número antecedente será entregue aos sábado um vale de acordo com o prescripto no número 5 e correspondente aos dias de serviço
8º – Com esse vale poderá o immigrante dirigir-se a qualquer negociante, que lhe qeira fornecer e comprar o que precisar para si e para sua família. [Pedro Chiuratto fechou contrato com o Governo para fornecer o que o imigrante precisava, pois a Casa Garibaldi era a única com condições para tal em São José dos Pinhais; recebia os vales e o Governo ressarcia-os]
9º – O negociante deverá fornecer mercadorias que não excedam ao valor do vale restituindo sempre que possível o excedente em moeda corrente.
10º – O immigrante terá, além de outros favore que lhe são concedidos em lei, gratuitamente sementes , bacellos e mudas de árvores fructiferas e essências florestais,
bem como as ferramentas mais imprescindíveis ao trabalho, pás, foices e machados . [A Casa Garibaldi fornecia as ferramentas]
11º – Fora desses só em casos especialíssimos, poderá ser fornecido, levando-se a débito do immigrante, outros instrumentos, próprios e destinados exclusivamente à lavoura e agricultura, ajuízo e ordem desta Secretaria.
12º – Localisado o immigrante é feito devidamente em livro próprio a respectiva matrícula, ser-lhe-á entregue o seu título provisório de propriedade, título que logo será substituído pelo definitivao depois de effectuado o pagamento integral. (3)
Secretaria d’Estado dos Negócios de Obras Públicas e Colonização
7 de agosto de 1908
Os imigrantes iam comprar com os vales na Casa Garibaldi, de Pedro Chiuratto, posteriormente o governo ressarcia o valor devido. O terreno da casa comercial possuía um extenso fundo, onde eles estacionavam suas carroças para se abastecerem. A quase totalidade da produção da colônia era comercializada em Curitiba, transportada em carroças pela precária estrada de chão. Quando chovia e o rio Iguaçú transbordava, a estrada se tornava impraticável.
Além dos vales, Pedro, quando não recebia à vista, vendia através das “cadernetas” individuais, onde eram anotadas as compras, seu valor, e quitadas ao final do mês. Era o sistema habitual de crédito na época. Sua esposa, Carolina, normalmente controlava o caixa, enquanto que suas filhas ajudavam na loja.
Pouquíssimas informações, bem como documentos, como bem o nota Marochi (3), da Casa Garibaldi e de outras casas comerciais de São José dos princípios do século XX sobreviveram. Por isso, são valiosas as lembranças narradas por Pedro Brito e registradas pelo autor destas linhas em 2007. Pedro Brito era neto de Pedro Chiuratto, filho de Norberto Alves de Brito, que foi prefeito de São José entre 1890 e 1894, proprietário da residência vizinha da Casa Garibaldi. Em sua juventude nos intervalos da escola trabalhava no estabelecimento de Pedro. Brito varria a loja e lavava garrafas de vinho, engarrafava o álcool, que
era comprado em barril. Pedro Chiuratto era o único representante da Standard Oil no município, somente ele vendia gasolina e querosene. A gasolina vinha em latas de 18 litros, ele furava as latas e fracionava seu conteúdo. A Casa Garibaldi era a única que vendia gasolina e querosene na cidade. Desse modo, a Casa Garibaldi funcionou como o primeiro “posto de gasolina” de São José.
A Standard Oil Company foi a maior companhia de seu tempo, produzindo, transportando e refinando petróleo. A Standard Oil começou em Ohio, em uma sociedade formada por John Davison Rockefeller, seu irmão, William Rockefeller, Henry Flagler, o químico Samuel Andrews e o sócio passivo Stephen V. Harkness. Posteriormente Pedro Chiuratto vendeu a concessão de combustível para Pedro Bino, que montou o primeiro posto de São José.
A Casa Garibaldi vendia praticamente tudo que era necessário para a sobrevivência em uma vila pequena. Tintas, por exemplo, eram preparadas a partir de matérias primas importadas ou revendidas por Pedro: óleo de linhaça, alvaiade secantes, cal, pigmentos, etc. O interessado comprava-as a granel e misturava-as segundo suas receitas e gosto. Vendia óleo de oliva, vinhos, sedas, adereços, lápis, vinagre e o que fosse necessário.
Vendia todos os tipos de tecido e acessórios de costura; roupas, chapéus, trajes de festa e mesmo de noivas. Era comum a noiva se vestir no quarto ao lado da loja e ir se casar na Igreja ao lado. Constantemente vinham apreciar os tecidos importados, as novidades vindas da Europa.
Vendia muitos produtos importados: sardinha, bacalhau português, vinho do Porto. Não havia latas individuais de sardinha como hoje, vinham a granel e as quantidades eram fracionadas segundo o pedido do freguês. O mesmo acontecia com o bacalhau, que vinha acondicionado em caixas de madeira.
Nessas caixas, que eram abertas pelo jovem Pedro Brito, vinham brindes, como tesouras, navalhas, etc., que ele apreciava.
Nos fundos do terreno criavam e engordavam porcos, cuja carne era vendida e dela também se faziam linguiças. Era também a farmácia da vila, dispunha de todos os medicamentos básicos mais exigidos. As latas vazias dos produtos eram vendidas para os colonos usarem. Produtos para os animais, alfafa, palha de milho eram também comercializados. Fornecia materiais para construção, pregos, ferramentas diversas. O cal era vendido a granel e embarcado nas carroças nos fundos do estabelecimento. Pedro Chiuratto se abastecia em atacadistas em Curitiba, tais
como Emilio Romani e Ângelo Vercesi.
Havia um pequeno circo mambembe em São José, o circo Hambrusch. Ele circulava pelo pais, mas sempre retornava a São José, quase sempre falido. Então “Seu” Pedro Chiuratto vendia-lhe fiado; quando a excursão tinha sucesso então suas contas eram quitadas. Normalmente adquiriam, entre outras coisas, “lona” para o circo, a qual, na verdade, era um tecido resistente de algodão trançado.
Pedro aos domingos, depois da missa, recebia em sua casa o vigário, os amigos, José Zaniolo, Maurício Caillet, Clemente Zétola, José Moro, Emílio Romani e outros para almoçarem juntos, muitas vezes acompanhados de suas famílias. Um lauto almoço era servido, regado com os bons vinhos da casa.
Não faltavam o risoto, o macarrão, a linguiça caseira e a polenta. O vigário, após encerrar seus compromissos domingueiros, sempre presente. Depois vinha o jogo de baralho, ruidoso, espalhafatoso. Os amigos, como bons italianos, falavam alto e não raro escapava um palavrão inocente.
Numa dessas ocasiões, recorda divertido Pedro Brito, chega um colono e dirige-se ao vigário para encomendar uma missa. Ao ver a paupérrima espórtula devida, o vigário exclama: “isso só vai dar para uma missinha de merda”.
José Zaniolo, grande amigo de Pedro, chegou ao mesmo tempo que ele. Principiou com uma pequena serraria mas, empreendedor, abriu o primeiro cinema de São José dos Pinhais. Cinema mudo, projetor a carvão, uma pequena orquestra propiciava a animação.


Propaganda nos jornais da época do Circo Hambrusch. Escritura reconhecendo o depósito de Anna Auleckz. Coleção do Autor.
Pedro, como todo bom italiano, falava alto, e como era vizinho próximo da Igreja lá era claramente ouvido. Numa dessas ocasiões, quando Pedro estava a “discursar”, o vigário na missa comenta: “ a prédica do Pedro é melhor do que a minha”.
O segundo grande contrato de Pedro Chiuratto, que impulsionou seus negócios, foi com o Banco Francês e Italiano para a América do Sul. Não era uma agência propriamente dita, mas antes algo como uma representação, tinha autorização para receber contas, depósitos e dinheiro. Por isso, pode-se mesmo afirmar que a Casa Garibaldi atuou como a primeira agência bancária de São José dos Pinhais.
Exemplo disso, é o documento datado de 24 de julho de 1926, escriturado pelo tabelião Manoel Victorino Ordine, de uma escritura pública de quitação de depósito que fez Anna Auleckz a Pedro Chiuratto, Nessa escritura Anna afirma que depositou com Pedro a importância de um conto e setecentos mil réis, mas que perdeu o comprovante. Pedro reconhece a veracidade do depósito e essa escritura é feita para substituir o documento perdido. Pedro Chiuratto era muito honesto, por isso recebeu a incumbência de representar o Banco, movimentando importâncias em seu nome.
Por volta de 1913 Pedro Chiuratto e Anselmo Vaccari se interessaram por terras nas encostas da Serra do Mar, na localidade então denominada de Araçatuba de Cima. Eram terras cuja demarcação e propriedade era nebulosa, então decidiram efetuar uma medição das mesmas, com o fito de adquiri-las. Parte era devoluta, e parte tinha propriedade duvidosa.
Essas terras também eram conhecidas como “Castelhanos”, hoje distantes pela BR 376 de pouco mais de 70 km do centro de São José dos Pinhais. Se confundem parcialmente com o Parque Nacional de Guaricana, o qual confrontam, e constituem uma das últimas reservas naturais da Serra do Mar.

Despesas com a medição das terras de Araçatuba de Cima, da parte de Pedro Chiuratto. Esses documentos foram doados pelo autor ao Museu Atilio Rocco.
Finda a medição, e de posse do mapa demarcando as terras efetuaram o contrato de aquisição. Era uma área de aproximadamente 2000 alqueires, sendo que a metade pertenceria a Pedro Chuiratto e a outra metade a Anselmo Vaccari.

Mapa da demarcação das terras de Araçatuba de Cima. Contrato de compra destas terras. Documentos da coleção do Autor.
Em 28 de abril de 1917 assinaram o contrato de aquisição dessas terras, sendo vendedores Armando Rocha de Carvalho e sua mulher Lourença Maria Rocha de Carvalho, do “lugar Araçatuba de Cima, distrito de Ambrósio”, com uma área de 46.037.440 metros quadrados (c. 1871 alqueires), pelo preço de três contos de réis.
Dessa área, segundo o mapa, 22.707.440 m2 caberiam a Anselmo e 24.200.000 m2 a Pedro. O Diário Oficial de 19 de Fevereiro de 1917, edição 1471, reconhece a medição e legitima a posse da área. O despacho reza o seguinte; “ Nos autos da posse denominada “Araçatuba de Cima, no Município
de São José dos Pinhais e requerido a título de legitimação por Pedro Chiuratto, Anselmo Vaccari e Amando Arlindo Rocha de Carvalho o Exmo. Sr. Dr. Presidente do Estado proferiu o seguinte;” {ver na figura a Sentença]. Na ocasião também compraram pequenas áreas contíguas.

Diário Oficial de 19/02/1917, sentença reconhecendo a posse. Documento da coleção do autor.
Em 1931 Pedro Chiuratto e Anselmo Vaccari cederam à Prefeitura de São José dos Pinhais 100 alqueires, com opção para mais 100, para colonização da terras de Araçatuba de Cima. Devido ao seu interesse
histórico transcrevo a cópia da carta endereçada ao Prefeito (da coleção do autor) a seguir:
Ao Snr. Prefeito Municipal de São José dos Pinhais
Os abaixo assignados, proprietário de terras no logar denominado Araçatuba de Cima, neste Município , havido por título legítimo, sobre o nº ………., se obrigam a conceder gratuitamente ao Município 100 alqueires de terras no referido logar com as condições seguintes:
1. Os ditos 100 alqueires de terras serão concedidos em um só logar, porem em uma de suas divisas.
2. Para fins de colonização, serão os 100 alqueires devididos em lotes de 3 alqueires cada um.
3. Cada lote deverá ser construída uma casa, e lavrado pelo mínimo 1 alqueire de terra.
4. Essa concessão durará pelo prazo e 2 annos, começando a contar de 1 de junho de 1931 a 1 de junho de 1933.
5. Neste prazo, caso não sejam edificado e lavrado a terra correspondente, reverterão aos proprietários novamente.
6. Caso o Município tiver necessidade de mais terras para a colonização, os proprietários do terreno acima, venderão mais 100 alqueires, a razão de 60$000 (sessenta mil reis) ao alqueire, sendo sempre do prazo de 2 annos, a contar de 1 de junho de 1931.
E para que produza seus efeitos legais, assigno o presente documento.
São José dos Pinhais 23 de fevereiro de 1931.
Assignado:
Pedro Chiuratto
Anselmo Vaccari
Essa doação provavelmente originou o núcleo da colonização do que no presente é a Colônia Castelhanos, no Município de São José dos Pinhais. Posteriormente, durante a Segunda Guerra Mundial, parte das terras dos italianos foram confiscadas, e Araçatuba de Cima não escapou dessa medida.
Isso ocorreu devido às represálias pela participação da Itália como aliada da Alemanha nesse conflito.Uma batalha jurídica se seguiu, nessa ocasião a metade dessas terras foram transferidas para família Rocha Loures. No presente, parte dessas terras foram provavelmente desapropriadas para formação do Parque Nacional de Guaricana e parte tomada por posseiros, praticamente pouco restando às famílias Chiuratto e Vaccari.

Cópia da carta de doação de 100 alqueires ao Município. Coleção do Autor. Estação da Luz, S.P. Coleção Museu Atílio Rocco.
Um grupo de são joseenses resolveu ir a São Paulo, entre eles Pedro Chiuratto e Carolina, José Zaniolo e esposa. A viagem, pela estrada de ferro, durou quase dois dias, mas, satisfeitos, lá estavam frente à Estação da Luz para registrar a proeza. Naquele tempo tal viagem era uma aventura memorável.
Pedro Chiuratto foi vereador da Câmara Municipal de São José entre 1912 e 1916.
Em 28 de julho de 1943 falece Pedro Chiuratto, vítima de pneumonia lobar aguda. Aproximadamente na mesma época, o Chanceler Britânico Winston Churchill também foi atacado de pneumonia, sobreviveu graças à penicilina, descoberta por Alexander Fleming, ainda em fase experimental.
Referências
1. Arquivo Público do Paraná. Livro 455, ordens 1338,1339, 1340, 1341.
2. Arquivo Público do Paraná. Livro 428, ordens 389, 396, 395, 390, 387, 388, 393, 394.
3. MAROCHI, Maria Angélica. Imigrantes -1870-1950- Os europeus em São José dos Pinhais. Curitiba: Travessa dos Editores, 2006.
4. ROCHA, Sedinei Sales. Lama Vermelha. São Paulo: Scortecci, 2014.
5. ALMEIDA, Manoel de Campos. Manoel Ribeiro de Campos – A Saga de Um Juiz de Direito. E-book. 2019, Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/334549525_Manoel_Ribeiro_d
e_Campos_-_A_Saga_de_Um_Juiz_de_Direito.. Acesso em 07/02/2020.
