• A RELAÇÃO ENTRE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E OS PATRIMÔNIOS CULTURAIS

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Iohana Emanuely da Silva Nardi

Nas últimas décadas, debates sobre as mudanças climáticas se tornaram parte do cotidiano em todo o mundo, devido ao aumento da frequência e intensidade de desastres ambientais e pela divulgação de estudos científicos que preveem um futuro ainda mais difícil. Esses fenômenos se manifestam de forma abrupta como furacões, enchentes e tsunamis, ou graduais como o aumento das temperaturas e elevação dos oceanos.

No Brasil, as enchentes que atingiram o estado do Rio Grande do Sul no ano passado reacenderam as discussões sobre as mudanças climáticas e a necessidade de estratégias de prevenção, no entanto, pouco se falou sobre a deterioração de patrimônios culturais, museus e peças de acervos que podem ser irreparáveis afetando a memória e a identidade da região.

Além do Rio Grande do Sul, que teve 283 instituições culturais afetadas, incluindo museus, bibliotecas, casas de cultura, teatros, igrejas históricas e prédios públicos tombados, outras regiões do país também vem sofrendo com danos patrimoniais significativos. Em Minas Gerais, as chuvas intensas de 2022 provocaram deslizamentos de terra que destruíram casarões e edificações centenárias em cidades históricas. Já em 2020, as queimadas atingiram o Pantanal, destruindo áreas de preservação ambiental e alterando irreversivelmente a paisagem e a biodiversidade da região.

O patrimônio cultural material que abrange bens concretos como imóveis, sítios arqueológicos e objetos de acervos (documentos, obras de arte, fotografias, entre outros), pode ter sua estrutura comprometida por meio de processos como a umidade excessiva, a variação de temperatura, a poluição atmosférica, chuvas intensas ou enchentes que podem acelerar o desgaste físico desses bens. Simultaneamente, os patrimônios naturais, como paisagens, parques e reservas, também sofrem com as mudanças climáticas com a intensificação das secas, incêndios florestais, elevação do nível do mar e perda da biodiversidade, comprometendo também os povos tradicionais dessas regiões.

Além dos patrimônios materiais e naturais, é necessário também considerar os imateriais que são práticas, saberes, tradições, festividades, e modos de fazer transmitidos entre gerações. E alguns povos são profundamente ligados aos locais onde praticam seus conhecimentos, como povos indígenas, quilombolas e grupos ribeirinhos que mantêm uma relação direta entre suas práticas culturais e os ecossistemas que habitam, utilizando a biodiversidade local para atividades de subsistência, rituais espirituais ou expressões artísticas.

Quando os territórios desses povos, que podem ser patrimônios naturais ou não, sofrem alterações devido às mudanças climáticas, esses patrimônios imateriais também se fragilizam, pois perdem o contexto que lhes dá significado, afetando as relações sociais e identitárias da comunidade. Diante desse cenário, torna-se evidente a importância de leis e instituições responsáveis pela proteção do patrimônio cultural, tanto no âmbito internacional quanto nacional. No plano internacional, a Convenção da UNESCO para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural (1972) estabelece diretrizes para preservar bens de valor universal, orientando os países signatários a adotar medidas de proteção contra ameaças, promover monitoramento contínuo, incentivar a educação patrimonial e garantir que intervenções respeitem a integridade e autenticidade dos bens.

No contexto nacional, o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) atua na implementação das políticas de preservação previstas na Constituição Federal de 1988, que assegura a proteção do patrimônio como direito da sociedade e dever do Estado. Entre suas atribuições estão o tombamento e o incentivo à preservação de bens materiais e imateriais, e a fiscalização de obras que possam comprometer a integridade do patrimônio, e em parceria com governos estaduais e municipais, o IPHAN desenvolve ações preventivas, programas educativos e planos de contingência que buscam minimizar os impactos de eventos climáticos extremos sobre os bens culturais.

Em conclusão, as mudanças climáticas representam uma ameaça crescente aos patrimônios materiais, imateriais e naturais, impactando não apenas a integridade física dos bens, mas também a memória, a identidade e os modos de vida das comunidades que deles dependem.

A preservação desses patrimônios exige a atuação coordenada de instituições, aliada a políticas públicas eficazes, educação patrimonial e planejamento preventivo. Somente por meio de uma estratégia conjunta, que considere os riscos ambientais, o valor cultural e a participação das comunidades locais, será possível garantir a proteção e a continuidade desses bens para as gerações futuras.


REFERÊNCIAS

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