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Diário de Ernani Zétola – 1975
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Título
Diário de Ernani Zétola - 1975
Descrição
Agenda de 1975 que Ernani usou como diário durante viagem a Lisboa.
Transcrição
Lisboa, 7 de junho de 1975.
É incrível a propaganda do Partido Comunista Português; eles não são a maioria mas parecem dominar a situação impondo-se acintosamente. Os belíssimos monumentos e prédios da cidade estão pichados com a foice e o martelo, ou recamados de cartazes comunistas, com fotos de Stalin e outros lideres. O soldado português, que outrora foi o mais bem fardado da Europa, hoje apresenta-se com a farda suja, desabotoada, com cabelos e barbas longas, impressionando muito mal. A Lisboa que em outros tempos fervilhava de turistas, agora está vazia dos mesmos e o comércio ressente-se disso. Falando com portugueses sensatos eles nos disseram: agora todo mundo quer ganhar muito, sem trabalhar. Coisa idêntica acontece na Itália.
Lisboa, 8 de junho de 1975.
Após o banho e o café saímos; fomos assistir a missa em uma igreja velhíssima, com aparência de em épocas passadas ter sido saqueada, pois até algumas imagens estavam sem as cabeças. Depois visitamos o museu e a Igreja dos Jerónimos, mais a Torre de Belém, sentinela muda na foz do Tejo. Regressamos ao centro, almoçamos e encontramos um brasileiro aqui radicado, com o qual batemos um bom papo. À noite demos um giro pelas ruas dos teatros e dos dancings, depois visitamos duas casas de fado, na parte antiga da cidade.
Lisboa, 9 de junho de 1975.
Pela manhã fomos à agência turística confirmar a nossa passagem de volta pelo “Eugênio C”. Embarcaremos dia 15 às 21:30 horas. Após o almoço descansei um pouco e às 16:00 fui cortar o cabelo. Depois regressei ao hotel, só saindo à noite para jantar [ilegível]; porém, como a noite estava muito fria, às 22:45 hrs. eu e meus amigos nos recolhemos.
Lisboa, 10 de junho de 1975.
Após o café matinal saí sozinho e fui a um local muito lindo bem próximo do centro da cidade; lá comprei 4 xales de lã, feito a mão. À tarde não saímos por estar muito frio e ventando fortemente. À noite jantamos no restaurante de costume, onde come-se bem e barato. Lá travamos conhecimento com uma simpática senhora portuguesa que tem um filho estabelecido em São Paulo. Ela já esteve lá e também no Rio.
Lisboa, 11 de junho de 1975.
No período da manhã fiz algumas compras e após o almoço subi de bondinho até o Miradouro de São Pedro de Alcântara, donde se descortina grande parte da cidade. Voltei ao hotel e descansei até às 17 horas; depois saí e subi as ladeiras sinuosas que levam ao morro onde está o imponente Castelo de São Jorge, a coisa mais linda que vi nesta cidade. Lá de cima descortina-se em todas as direções esta Lisboa antiga e senhorial, cheia de encantos e beleza, banhada pelo Rio Tejo. O Castelo é um conto de fadas, com seus jardins suspensos, suas fontes e seus regatos, onde nadam cisnes e peixes dourados. Pavões brancos passeiam pela grama, entre as árvores. Fui sozinho, pois meus amigos não demonstraram interesse em me acompanhar. À noite fui assistir um filme na 2ª seção do Cine São Jorge. Coisa interessante nos cinemas de Lisboa, tem um intervalo de 10 minutos no meio do filme.
Lisboa, 12 de junho de 1975.
Hoje fez muito calor; pela manhã fiz algumas pequenas compras e após o almoço saí mais um pouco, mas como estava muito quente retornei ao hotel, só saindo à noite para jantar e dar mais giro pelo centro, o qual entretanto estava sem movimento algum.
Lisboa, 13 de junho de 1975.
Hoje é feriado em Lisboa, dia de Santo Antônio, Padroeiro da cidade.
Pela manhã fui à missa e, após a mesma, tomei o elevador que conduz à cidade alta, onde visitei as ruínas do Convento do Carmo. Regressando, fui com os dois amigos almoçar e quando saímos do restaurante estava chovendo; regressamos ao hotel e dormimos a tarde toda, só saindo à noite para jantarmos, depois fomos a um cinema onde assistimos ao filme “[ilegível] Proibido”, quatro estórias medievais muito eróticas, quase pornográficas. Aliás, depois da queda de Salazar, a censura relaxou muito, pois, vi meninos de 10 ou 12 anos vendendo revistas pornográficas, livremente expostas nos passeios.
Lisboa, 14 de junho de 1975.
Saímos cedo para as últimas compras; regressamos ao hotel aguardando a hora de irmos ao restaurante. Após o almoço voltamos ao hotel e descansamos até as 16 horas; depois iniciamos a arrumação das malas, pois amanhã, felizmente embarcaremos no “Eugénio C”, que nos levará de regresso ao nosso querido Brasil. À noite saímos para o jantar, após o qual demos um giro pelo centro da cidade.
Lisboa, 15 de junho de 1975.
Pela manhã eu e um amigo fomos à missa das 11 horas; regressamos ao hotel e às 13 horas fomos almoçar. Regressando, terminamos de arrumar as malas e nos dirigimos ao Caes Rocha, para as necessárias vistorias alfandegárias; às 21:30 horas embarcamos no “Eugénio C” e, após acomodarmos a nossa bagagem na cabine, fomos ao bar do navio para um laudre. São 24:00 hrs e dentro de poucos minutos partiremos. Adeus Lisboa, adeus Portugal, adeus Europa!
A Bordo do “Eugénio C”, 16 de junho de 1975.
Hoje, em nosso primeiro dia de viagem, já atrasamos os nossos relógios em 1 hora. Pela manhã após o café, passeamos pelo convés, onde encontrei com algumas pessoas com quem fiz amizade na viagem de ida. Após o almoço li um pouco de um livro que retirei da biblioteca do navio; depois dormi até às 17 hrs., não comparecendo ao exercício de salvamento. À noite foi servido o delicioso “jantar de boas vindas”. Fui ao cinema na sessão das 22 hrs. São 24 hrs. e estamos navegando na costa marroquina. É grande o número de portugueses que deixam Portugal, transferindo-se para o Brasil levando enormes bagagens.
A bordo do “Eugénio C”, 17 de junho de 1975.
A vida a bordo está se tornando monótona e rotineira: convés, ler e dormir; à noite bingo e dança no Salão Turquesa. Cinema em três sessões. Estou cada vez mais ansioso por desembarcar no meu querido e saudoso Brasil. A falta de maiores atividades faz com que eu ganhe cada dia mais peso, visto que a comida a bordo é deliciosa e variada. Hoje pela manhã passamos pelas Ilhas Canárias.
A bordo do “Eugénio C”, 18 de junho de 1975.
Continuo na mesma rotina: comer, ler e dormir. Terminei um livro e fui apanhar outro na biblioteca. O mar está sempre calmo e o navio desenvolvendo 27 nós horários. Estamos nos aproximando das Ilhas de Cabo Verde. Na sessão das 22 horas assisti ao filme “Morrer de Amor”, com Anne Girardet; muito bom. Já passa da meia-noite; vou tomar meu banho, ler um pouco e dormir.
A bordo do “Eugénio C”, 19 de junho de 1975.
Comer quatro vezes ao dia, dormir à tarde e à noite, fazem-me engordar cada vez mais. Minha distração tem sido a leitura e o cinema. Hoje fez calor o dia todo e a noite continua quente. À meia-noite atrasaremos os nossos relógios em mais 1 hora. Estou contente porque cada dia que passa nos aproximamos mais do fim da viagem. Já ultrapassamos as Ilhas do Cabo Verde.
A bordo do “Eugénio C”, 20 de junho de 1975.
Às 10,30 horas, na piscina houve a coroação do Rei Netuno, eleito entre os rapazes mais garbosos a bordo, seguindo-se as costumeiras brincadeiras de passagem do Equador. Às 16,30 passamos pelas Ilhas de São Pedro e São Paulo. Às 19,30 horas foi servido o delicioso Jantar Equatorial. Às 21,30 o costumeiro bingo, seguindo-se o “Baile de Gala para a Linha Zero”. Agora vou tomar um banho e dormir bem contente, pensando que, dentro em breve estarei em minha casa, em São José dos Pinhais.
A bordo do “Eugénio C”, 21 de junho de 1975.
Estamos navegando em águas brasileiras; até parece que já estou sentindo um cheirinho de Brasil. Depois do almoço dormi um pouco e às 17,30 horas levantei-me e fui ao cinema onde assisti ao filme “O Monstro da Estrada”, bem bonzinho. Às 16,30 fui ao “Salão Gênova” para uma xícara de chá. Retornei à cabine, tomei um banho e preparei-me para o jantar. À noite, no “Salão Turquesa”, houve o “Baile de Máscaras” e o desfile de fantasias, improvisadas. Mesas e todo o ambiente decorados á cantina napolitana; comida napolitana e, até os garçons, tipicamente trajados de napolitanos.
A bordo do “Eugénio C”, 22 de junho de 1975.
Sendo hoje domingo e amanhã a chegada do navio ao Rio de Janeiro, houve missa em ação de graças pela ótima viagem feita, a qual foi celebrada no “Salão Turchese”. À noite, no “Restaurante Genova” foi servido o delicioso “Jantar de Arriverdeci”. Às 23 horas, no “Salão Turchese”, foi apresentado um espetáculo musical folclórico denominado “Carosello Napoletano”, do qual participaram elementos da tripulação, verdadeiros artistas, que dançaram a “tarantella” e cantaram belas cançonetas napolitanas.
A bordo do “Eugénio C”, 23 de junho de 1975.
Felizmente hoje foi o nosso último dia de viagem. Há pouco mais de 2 horas deixamos o Rio de Janeir; agora são exatamente 23,30 hrs. A nossa chegada em Santos está prevista para amanhã às 7 horas. Graças a Deus tudo correu bem. Nossas malas já estão prontas e colocadas no corredor, frente à nossa cabine, de acordo com a determinação do Comissário da Ponte “A”. –FIM
Dimensões
11 cm x 16 cm
Doador
Juarez da Costa
Material
Couro e papel
Cor predominante
Vermelho
