• Zacarias Alves Pereira: o marco da história artística são-joseense

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Biografia Nhô Zaca

No dia 30 de outubro de 1861, nasce em São José dos Pinhais na condição de escravo o menino Zacarias, cujo registro está no Livro de Batismo nº 6 da Casa Paroquial desta cidade. No ano de 1873, aos 12 anos de idade deixa de cumprir as obrigações de servidão, e recebe o sobrenome da família, passando a se chamar Zacarias Alves Pereira. 

Casou-se em 1906 com Maria Cristina Alves e morou num sobrado situado na Praça Oito de Janeiro, onde abrigou seus quatro filhos. Sobrado este que passou a ser conhecido como Casarão do Nhô Zaca, local que serviu também para encontros e festividades. Seu Zacarias veio a falecer no dia 28 de Junho de 1942.

Nhô Zaca realizou ao longo de sua história muitas atividades ligadas à arte e a cultura. Como alfaiate produziu tanto vestidos para mulheres da época, como também ternos masculinos e roupas infantis, até mesmo colchas e lençóis. Alguns de seus figurinos de 1899 fazem parte do acervo do Museu Municipal Atílio Rocco, os quais evidenciam extremo capricho do artista. Um dos exemplares é um vestido para criança produzido em 1912, para sua filha Olga. Devido o seu talento, as noivas preferiam os vestidos feitos por ele. Como pintor retratou as paisagens são-joseenses. E como escultor esculpiu imagens religiosas em madeira.

Nhô Zaca foi também marceneiro, regente de banda e tenente da Guarda Nacional. Fabricava caixões para as pessoas mais humildes da cidade, e para complementar os trabalhos funerários, tocava o sino da Igreja. Muitas vezes participou também na montagem cenográfica em teatros.  

Nhô Zaca Devoto

Há o relato de Maria de Lourdes Pereira Setim, filha de Zacarias Alves Pereira, feito no dia 10 de novembro de 1999, na época com 82 anos.

“Meu nome é Maria de Lourdes Pereira Setim. Nasci no dia 13 de novembro de 1917, no velho casarão da Praça Oito de Janeiro. Sou filha de Zacarias Alves Pereira e o meu pai dizia que este casarão não devia ser derrubado, pois chegou a ser sede da nossa Igreja Matriz, quando ela estava sendo reconstruída. (…) Esta Igreja de São João, ela vendia pão de ló, daquele pequeno nas festas do Divino Espírito Santo e do Sagrado Coração de Jesus, enfim, em todas as festas. Aí, ela foi juntando o seu dinheirinho e mandou buscar aquela imagem de São João (…). Minha avó mandou buscar a imagem em Portugal. Isto tudo à custa de seus pãezinhos, que todos ajudavam a vender. Lembro que por último era eu quem cuidava da igrejinha. Quando chegava o tempo da festa, eu tinha que limpar tudo. Então, varria, lavava, preparava as toalhas do altar e as flores artificiais. As novenas de lá, eram bem bonitas, eram lindas! Neste tempo eu cantava no coral. (…) Quando a igrejinha foi demolida, eu devia ter uns 13 ou 14 anos de idade. Foi mais ou menos no início dos anos de 1930.”  

Nhô Zaca Escultor

Nhô Zaca era muito religioso, o que levou a expressar sua devoção através da escultura e pintura de imagens sacras. Outro marco de sua fé foi à construção de uma capela devotada a São João Baptista, dentro da propriedade privada dos Alves Pereira. 

A Capela foi criada dia 22 de abril de 1880 pela leiº 614, assinada pelo Presidente da Província. As novenas e festas ao seu padroeiro foram o que fizeram da igrejinha um local marcante por todos os humildes moradores que participaram dessa trajetória. Provavelmente essa Igreja foi demolida no ano de 1935 sem motivos e relatos específicos. 

Escultura de Sant’Ana

Sant’Ana é a mãe de Maria. É considerada santa, pois mesmo sendo estéril continuou acreditando em Deus e sendo assim, o Arcanjo Gabriel apareceu e Sant’Ana engravidou, nascendo assim Maria mãe de Jesus.

A obra de Zacarias Alves Pereira trata-se de seu primeiro trabalho como santeiro. Ele ofereceu a imagem à Capela de Sant’Ana, localizada em São José dos Pinhais, no ano de 1917, conforme inscrição por ele deixada sob a base da mesma. Da capela, atualmente só restam ruínas. 

Nhô Zaca Pintor

A pintura a óleo da Thémis, Deusa da Justiça, possui a sua singularidade. Ela é retratada com um livro ao seu lado, que deveria ser a Constituição, mas no livro há os números romanos dos Dez Mandamentos da Lei Divina, estando três deles no lado esquerdo e sete no lado direito, assim como as pedras entregues a Moisés por Deus. 

Também existem outros livros ao lado da deusa, simbolizando o conhecimento, tido como necessário para se julgar o certo e o errado. Outro detalhe é que a Dama está retratada em meio a um campo, e a única edificação, mesmo que pequena, é o local onde ela se encontra, demonstrando o avanço que a justiça traz.

Ela veste as cores brancas, verdes e azuis, sendo o branco o símbolo da pureza e da moralidade intacta; o verde o símbolo da esperança; e o azul representando o equilíbrio, a temperança. A mulher está vendada, como nas outras tantas representações, e também segura na mão esquerda à balança, outro símbolo de equilíbrio, e a espada na mão direita, demonstrando a execução do não justo. 

E uma curiosidade: a data da finalização da obra, 1925, encontra-se em um livro ao lado de Thémis, como se fosse o título do mesmo. A tela está em uma moldura escura, que ajuda a atenuar ainda mais as cores claras da obra, que passam um sentimento de calma e tranqüilidade a quem observa. 

Este quadro pertenceu ao Fórum Municipal da cidade e foi doado ao Museu Atílio Rocco na década de 1980, onde se encontra até hoje.

Créditos

Documentação e pesquisa:

Flavia Lago Burcaosky, Gabriel Serratto Paris, Luciano Chinda Doarte, Mayara Machado Gomes Faria, Renan dos Santos Souza e Vitor Magliocco do Carmo.

Fonte:

MAROCHI, Maria Angélica. De Freguesia a Diocese: a trajetória da Igreja Católica em São José dos Pinhais, 1690-2007. Curitiba: Travessa dos Editores, 2007.

Entrevista com familiares; Livro de classificação dos escravos para serem libertos pelo fundo de emancipação, pág. 2, situado no Museu Municipal Atílio Rocco; Certidão de Nascimento; Óbito e Casamento situado no cartório do registro civil de São José dos Pinhais Lidia Kruppizak. 

Agradecimentos:

Família Alves Pereira