• Patrimônio Cultural Funerário no Cemitério Municipal São José

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O Cemitério no Ocidente

O costume de sepultar nossos falecidos não possui uma origem fácil de ser alcançada, já que este hábito existe desde a pré-história. Essa prática teria como objetivo evitar a exposição do corpo às ações da natureza, no entanto, outras razões desconhecidas podem também justificar este hábito. 

A imagem moderna do cemitério está atrelada à morte, rituais fúnebres e a despedida, no entanto, os cemitérios podem ter muito mais a nos oferecer, principalmente quando os vemos como fonte de conhecimento. Através de frases gravadas em lápides, detalhes arquitetônicos, esculturas, pinturas ou qualquer outro tipo de manifestação artística, pode-se extrair fragmentos que nos ajudam a vislumbrar e também reconstruir parte dos detalhes da história e cultura local. 

Os cemitérios como nós os conhecemos hoje nem sempre foram assim. Até meados do século XIX era comum enterrar os corpos dos falecidos em regiões próximas à igreja ou até mesmo no interior delas, este tipo de prática existia tanto nos centros urbanos quanto nas áreas rurais das cidades. Esse costume era associado à crença de que quanto mais perto do altar fosse o sepultamento, mais perto a alma do falecido estaria da salvação. Isso mudou somente no final do século XIX, quando uma grande expansão urbana aconteceu em todo território brasileiro, novas políticas de higiene foram adotadas, e com isso, veio a proibição de sepultamentos nas igrejas para evitar contaminações. 

A princípio a população resistiu aos sepultamentos fora das igrejas, visto que essa prática era considerada vergonhosa e associada aos escravos, aos que não possuíam dinheiro para pagar por uma cova e até mesmo indigentes. Somente com o passar do tempo houve maior aceitação dos espaços cemiteriais, uma vez que passaram a ser vistos como locais santificados. Com esta mudança, aconteceram inúmeras manifestações de novas tradições, os cemitérios passaram a abarcar diferentes maneiras de homenagear aqueles que ali estão sepultados e começaram a ser utilizados para exercer distinção de classes sociais, com representações de estilo de vida e status.

Patrimônio Cultural no Espaço Cemiterial

Na nossa cultura popular, há um grande sentimento de aversão aos cemitérios, que, através de filmes, livros, contos e outros tipos de produções, são retratados como locais misteriosos e mal assombrados, que geralmente remetem ao terror e ao medo. Entretanto, esses espaços são repletos de valores simbólicos, artísticos e culturais, também são redutos da memória e identidade locais. 

É comum o pensamento de que o patrimônio cultural de um povo está presente somente nas antigas construções e nas grandes esculturas que ocupam espaços públicos.Não há, geralmente, uma associação entre cemitérios e patrimônio cultural, por esse motivo, torna-se fundamental a conscientização e aceitação de que este espaço também pode ser rico para diversas áreas do conhecimento.

Importante lembrar não somente da arte cemiterial, mas seu diálogo com o patrimônio cultural, a memória e a identidade, conceitos que podemos usar em conjunto para discussão acerca do ambiente cemiterial no espaço urbano, visto que este local pode ser entendido como lugar de “não esquecimento’, já que as construções vistas neles tem objetivo justamente de perpetuar a memória daquele ali sepultado.    

Este espaço representa não só as crenças e aspirações dos indivíduos, gostos e traços culturais, mas também o próprio projeto da sociedade humana, de sobrevivência e perpetuidade.[1] Assim é possível identificar o cemitério como experiência individual e coletiva, reflexo das tensões e das singularidades da sociedade que o cerca, questões que serão levadas de diversas maneiras até as lápides, jazigos, túmulos, etc.

O Cemitério Municipal de São José dos Pinhais

As primeiras tratativas para construção de um cemitério no centro de São José dos Pinhais datam de pelo menos 1829, quando o debate chega a Câmara Municipal de Curitiba, está tinha intenção de executar a obra não somente na sua vila como na então freguesia de São José, dentre outros locais. Este projeto tinha como foco principal dar seguimento ao processo de higienização das cidades, visto que a prática de enterrar os corpos no espaço da igreja, como era a feito até então, facilitava a disseminação de inúmeras doenças. [1]

Apesar disso, muito tempo foi necessário até que os esforços fossem frutíferos e somente em 1856 o Cemitério Municipal de São José dos Pinhais, oficialmente chamado de “Cemitério São José”, pode ser inaugurado. A partir desta data todo sepultamento na cidade, sem qualquer distinção social, aconteceu neste local, cena diferente da vista em outras localidades, onde o cemitério extramuros além de ser visto como espaço não secularizado e alheio ao sagrado (algo que também era perceptível em São José dos Pinhais) era o lugar onde apenas os indigentes, andarilhos, suicidas, pessoas sem condições financeiras, dentre outros, eram sepultados.

Sob o ponto de vista artístico-cultural, os jazigos encontrados neste espaço nos ajudam, também, a entender um pouco mais da história de nossa cidade. A arquitetura do mausoléu, por exemplo, é eclética, tem elementos de art déco em sua estrutura e de art nouveau nos florais e folhagens em relevo. Isso acontece também no jazigo da família Vacari, para citar outro exemplo. Estes dois movimentos artísticos, se usarmos uma simples linha do tempo, acontecem numa seqüência cronológica, art nouveau antes e art déco depois. Eles mostram as transformações sociais que ocorriam no final do século XIX e início do século XX, quando as construções abandonaram os ornamentos e curvas e investiram numa maior simplicidade de formas e um estilo mais limpo. Por conseguinte, os túmulos verticalizados encontrados no Cemitério São José, são reflexo do movimento modernista na arquitetura, influenciados principalmente, pelas idéias do arquiteto suíço Le Corbusier, consistindo numa maximização no uso do espaço e na arquitetura servindo a um propósito o muito mais funcional do que estético.    

 Dito isso, é muito comum que reconheçamos cemitérios muito emblemáticos – pontos turísticos tradicionais – como patrimônio cultural. Este é o caso do Recoleta em Buenos Aires ou do Père-Lachaise em Paris. É interessante desenvolver a noção de que o cemitério local também pode ter potencial como patrimônio cultural, ele pode exibir características arquitetônicas, históricas, geográficas ou artísticas, que muitas vezes nos ajudam a compreender parte de nossa história, uma vez que estes são locais que podem ser de interesse geral e não específico de alguma área do conhecimento.