• Numismática: contradições na iconografia do dinheiro

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Os símbolos sempre estiveram ao nosso redor, nas placas que vemos, roupas que usamos e até mesmo na comida que comemos e, assim como em todas as coisas, no mundo monetário os símbolos também se fazem presentes. Desde seus primórdios a iconografia do dinheiro foi utilizada como uma forma de estabelecer a classe dominante e inserir signos no imaginário popular, há mais de 2000 anos o rosto de Júlio César estampava as moedas romanas, no Brasil, por muito tempo, os monarcas ocuparam este espaço.

As primeiras moedas oficialmente brasileiras foram cunhadas em 1695, na cidade de Salvador. Durante o período do Brasil Colônia e do Brasil Império, essas moedas e cédulas carregavam os símbolos da família real. No ano de 1889 houve um rompimento com a monarquia através da Proclamação da República, entretanto, diferentemente de outros países, a passagem para o novo modelo de governo não envolveu o povo, mas consistiu em uma decisão política vinda dos militares, que deram origem à “República Velha”.

Ao analisar a iconografia das cédulas e moedas do período pós-monarquia, podemos perceber que os antigos símbolos continuaram presentes, ao passo que para manter o mito fundador brasileiro, apesar da grande ruptura administrativa, os governantes continuaram usando a representação das faces e ícones da realeza no dinheiro. Um grande exemplo desta prática está contido na cédula de Mil Réis, produzida em 1890, apenas um ano após a proclamação da república, na qual está estampada a antiga Residência Imperial de Petrópolis, o atual Museu Imperial.

Estas contradições se agravam principalmente no período da Ditadura Militar (1964-1985), dentre aproximadamente treze cédulas que fazem referência a monarquia, pelo menos sete foram produzidas nesta época. Figuras como D. João VI, D. Pedro I, D. Pedro II, Princesa Isabel e Duque de Caxias estampam as notas de um regime que exaltava os militares da república velha, responsáveis por derrubar a realeza. A iconografia do período ditatorial também nos revela um grande afastamento da representação do povo no dinheiro, com apenas uma tentativa desastrosa de inserir o trabalhador em sua imagética.