• Identidade Negra: Trajetórias AfroSão-Joseenses

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O contar da história do município de São José dos Pinhais, na maioria das vezes, teve o olhar voltado aos europeus. Os poloneses da Colônia Murici, os ucranianos da Colônia Marcelino, os italianos do Mergulhão, alemães e poloneses na Colônia Afonso Pena, entre outros. Todos eles tiveram merecido destaque econômico e social da cidade.

Mas e os povos africanos? A exposição “Identidade Negra: Trajetórias AfroSão-Joseenses” busca resgatar a história dessa grande parcela da população, até então invisibilizada, mas que com resistência – muitas vezes organizando-se nos ainda existentes Quilombos – superando os árduos tempos de escravização e a falta de políticas de integração após a Lei Áurea, que ainda resulta nas desigualdades e preconceitos dos dias atuais, marca profundamente a cultura e a identidade brasileira, e que, também, tem papel fundamental no desenvolvimento econômico e social no Paraná e em São José dos Pinhais.

No Paraná, nomes importantes como Enedina Alves Marques – 1ª mulher negra a se formar engenheira civil em 1945, pela UFPR; Irmãos Rebouças, engenheiros nascidos na Bahia, responsáveis pela Estrada da Graciosa e pela ferrovia Curitiba-Paranaguá; Maria Nicolas, renomada professora, escritora, pesquisadora, autora de Alma das Ruas; e outros personagens afrobrasileiros são lembrados. Em São José dos Pinhais trazemos à tona nomes como Zacarias Alves Pereira, Serafim Machado, Maestro Chiquinho, Nhá Galeana e outros.

Origens

Durante mais de 350 anos de tráfico transatlântico, mais de cinco milhões de pessoas foram escravizadas e trazidas para o Brasil, oriundas das mais diversas camadas da sociedade e com diferentes saberes, incluindo rainhas, reis e crianças. O comércio escravagista fez do Brasil o maior receptor desse fluxo forçado, fazendo do país o 2º de maior população negra do mundo, atrás apenas da Nigéria.

Essa população habitava três principais regiões da África, que são: Alta e Baixa Guiné, que hoje correspondem ao Benin, Burquina Faso, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Libéria, Mali, Nigéria, Senegal e Serra Leoa. A Costa da Angola que hoje correspondem a Angola, Cabinda (província que pertence a Angola), Gabão, Congo e Guiné-Equatorial. E a Costa da Mina, que hoje correspondem a Camarões, Níger e Togo. Além de regiões mais isoladas como Moçambique, Namíbia e Sudão. Esse fenômeno é conhecido como Diáspora Africana. Há também grupos étnicos distintos trazidos ao Brasil durante o mesmo período, como os Anagôs, Angolas, Anjicos, Ardas, Bacongos, Balundos, Bantus, Congos, Fons, Fulas, Hauças, Ijexás, Iorubás (também conhecidos como Nagôs), Jalofos, Jejes, Lundas, Mandingas, Minas, Monjolos, Ombundos, Ovibundos, Quetos, dentre muitos outros.

Estatísticas

População negra no BrasilPopulação negra no ParanáPopulação negra em São José dos Pinhais
112,7 milhões 55%375.123 31,1%68.229 25,9%

FONTE: Censo IBGE 2010. PNAD 2012 – 2016.

Instituto de Terras, Cartografia e Geologia do Paraná, 2010. http://www.itcg.pr.gov.br/

Personalidades

Aqui, são apresentadas algumas das pessoas negras que marcaram a história de São José dos Pinhais. Entre eles, estão o vaqueiro Serafim Machado, o músico Chiquinho Pereira, o artista Zacarias Alves Pereira, o cabo João Fagundes Machado e o empresário Marco Aurélio Rosa, além de várias outras, lembradas em um relato de Ernani Zétola, mas sobre as quais não foram encontradas mais fontes.

Serafim Machado

Nascido em 1859. Foi mateiro, desbravador, morador da região da Contenda. Seu amplo conhecimento sobre a Serra do Mar foi fundamental tanto na implantação das Usinas de Chaminé e Guaricana quanto no estudo da rodovia Curitiba-Joinville, conduzindo os engenheiros responsáveis pelos projetos.

Chiquinho Pereira

Músico e maestro da cidade. Fez parte da “Banda Santa Cecília”, regeu a “Orquestra de Serenatas” e a “São José Jazz Band”. Violinista, tocava junto com a “Banda Cecília” durante as sessões no Ideal Cinema, fazendo a trilha sonora dos filmes que ainda eram mudos, na década de 1930. O grupo geralmente assistia ao filme um dia antes e ensaiavam para acompanhar a película.

Zacarias Alves Pereira

Nascido em 1863, em São José dos Pinhais. Viveu em um casarão também conhecido como sobrado do “Nhô Zaca”, em frente à Praça 8 de Janeiro. Desempenhou várias atividades na cidade, entre elas tenente da Guarda Nacional, suplente de juiz federal e tesoureiro da Prefeitura dessa cidade. Artista autodidata, dedicou-se à pintura em tela, esculturas e objetos artesanais, participando ainda da Banda Santa Cecília. Dotado de habilidades manuais, exerceu também a alfaiataria, costurando finos ternos para homens e vestidos para as noivas. Muito ligado à religião, a maioria de suas obras (imagens e quadros) eram voltadas para este tema. No início do século XX incluiu nas suas atividades a confecção de caixões fúnebres, sendo o mais procurado para exercer o ofício na época. Faleceu em 1942.

[Na foto de Zacarias, chama atenção o branqueamento]

João Fagundes Machado

Nascido em 1918, em São José dos Pinhais. Filho de Francisco Ferreira Machado e D. Francisca Alves Fagundes, o Cabo João Fagundes Machado integrou a FEB (Força Expedicionária Brasileira). Embarcou para o Teatro de Operações do Mediterrâneo no dia 30 de junho de 1944 junto com o 1º Escalão Expedicionário do Brasil. Em combate, faleceu no dia 17 de novembro de 1944, em Marano, Itália.

Foi condecorado com a Medalha de Campanha, Medalha Sangue do Brasil, e com a Medalha Cruz de Combate de 1ª Classe.

Marco Aurelio Rosa

Nascido em 1948, foi empresário da área de medicamentos veterinários, proprietário da Barô Produtos Veterinários. Foi presidente da Associação Comercial (Aciap) de São José dos Pinhais por três mandatos (1984-1987), dedicação voluntária que o levou a ser secretário municipal de Indústria, Comércio e Turismo (1991-1992). Faleceu em 1998. Passadas duas décadas, o exemplo de empresário comprometido com o município ainda repercute entre os cidadãos que o conheceram e os muitos amigos que o chamavam de Marcão.

O senhor Ernani Zétola (1921-2010), em entrevista concedida à pesquisadora Maria Angélica Marochi, em 2009, recordou as pessoas negras, ex-escravizadas e descendentes destas, que viviam no centro da cidade durante sua infância, nas décadas de 1920 e 1930.  Além de mencionar os trabalhos e atividades exercidas por algumas – como Nhá Belizia, que trabalhava para a família de Victorino Ordine; Leocádia, que trabalhava para a família de Paulino Cortes; Nhá Galeana, famosa parteira “que trouxe ao mundo a maior parte dos filhos desta terra”, e Ismael, alfaiate – Ernani também aborda aspectos da personalidade de alguns, como Nhá Maria Portes (“ela era pessoa muito religiosa”) e Nhá Thereza Quintiliano, doceira de mão-cheia (“devota do Divino e pessoa muito considerada na cidade”). De maneira mais geral, entretanto, se ateve às relações familiares: “Salvador – casado com mãe Taía”; “Irmãs Menárias […] e seu irmão Hildebrando […]; moradores da antiga Costeira”; “Nhôzinho Miranda, seu irmão França e mais um irmão que não recordo o nome e era pai da Alzira, casada com o Alberto Koerbel”; “Maria Antonia e sua filha Vera Cruz”; “Nhá Cristina […] teve três filhos: Olegário, Antônio e Alvino”; “Nhá Josefa (avó da Zélia) – viveu com o Jaime, que era inglês e tiveram filhos”; “Nhá Dita e seus filhos Nhá Chica e o Emilio que foi casado com a […] Conceição. A Nhá Chica vivia com o […] José Maria e tinha uma filha […] de nome Adelina”; “Nhá Ermelina – era mãe do Mané Manco (casado com a Nhá Rica), Pedro Bicheira e José Bicheira”; “Zacarias Alves Pereira (Nhô Zaca) casado com a Nhá Marica (Maria Cristina)”; “Gabriela – irmã do Nhô Zaca – casada com Israel Andrade”; “Eleutério […] casado com Tomazia […]. De um relacionamento anterior o Nhô Eleutério teve um filho […] – o conhecido maestro Chiquinho Pereira”; “Nhá Floripa (Floripes) […] vivia só; morava em velha casa de taipa na esquina da Rua São João (hoje sete de setembro) com a Praça 8 de Janeiro.”; “Nhá Thereza Quintiliano […]. Teve um único filho que chegou a ser alto funcionário federal”; “Nhá Galiana […]. Era mãe de Nhá Teodora de Sá”; “Ismael (sobrinho do Nhô Zaca) – era alfaiate e tinha um filho […] do seu primeiro casamento. Vivia com a Alice”; “Nhá Maria Diogo – cuja única filha a […] Maria José teve um filho, o José Cordeiro, que era filho do Toniquinho Cordeiro e neto do João Ângelo Cordeiro e de Nhá Chiquinha”.

Fonte: MAROCHI, Maria Angélica. História & Memória: a busca pela construção de uma identidade de São José dos Pinhais. São José dos Pinhais: Edição da Autora, 2014.

Bairro da Carioca

O Bairro da Carioca, no centro de São José dos Pinhais, era a região onde habitava parte população negra. O espaço não era grande e ficava junto a uma fonte de água natural denominada “carioca”, de onde vem o nome do bairro. O local era uma baixada com mata fechada. A fonte de água, que não existe mais, ficava nas proximidades da atual Capela Mortuária, do TRE-PR, e das ruas Voluntários da Pátria, Ângelo Zem e Mendes Leitão.

A população que ali habitava era de cozinheiras, lavadeiras, engomadeiras, doceiras, domésticas. Atuavam também no corte de lenha, limpeza de quintais, e no serviço público municipal na manutenção e limpeza de ruas.

A senhora Zélia Nogueira dos Santos (1935-2013), neta de ex-escravizados, relata que a população moradora da região se reunia em casas para tocar gaita e violão, dançar, promover bailes onde todos iam de tamanco. Os bailes aconteciam em um salão para o fandango, no local conhecido como Barroca Funda. Ela relata também que infelizmente essas manifestações culturais eram alvo de perseguição racial pelo poder público.

O destino dessa população que ali habitava ainda é desconhecido, as suas moradias foram sendo vendidas com o crescimento urbano da cidade.

Fonte: MAROCHI, Maria Angélica. História e Memória: a busca pela construção de uma identidade de São José dos Pinhais. 2014.

A religiosidade Afro-brasileira

A população africana trazida ao Brasil possuía sua própria cultura de expressão de religiosidade, fé e crença. Os Orixás são divindades que possuem aspectos do mundo natural ou humano. Existem 16 orixás cultuados, estes são: Oxalá, o deus da criação; Iemanjá, a deusa das águas salgadas, mares e oceanos; Xangô, o deus do fogo e do trovão; Oyá (Iansã), a deusa dos ventos e das tempestades; Oxóssi, o deus da caça; Ogum, o deus da guerra e das ferramentas; Oxum, a deusa das águas doces, rios, fontes e lagos; Exú, o mensageiro entre os homens e os deuses, guardião da porta da rua e das encruzilhadas; Obaluaê (Omulu), o deus da peste das doenças da pele; Nanã, a deusa da lama e das águas dos pântanos; Ossain, o deus das folhas e ervas medicinais; Oxumaré, o deus da chuva e do arco-íris; Obá, a deusa das águas doces revoltas, pororocas e quedas d’água; Ewá, a deusa da neblina e dos nevoeiros; Iroko, o deus do tempo e quem rege a ancestralidade; Logunedé, o deus da caça e da pesca.

As religiões afro-brasileiras formaram-se a partir do sincretismo, da mistura com outras religiões existentes no Brasil, como a mitologia indígena, o catolicismo e o espiritismo.

O Candomblé e a Umbanda são as mais famosas expressões religiosas afro-brasileiras, contudo ainda encontramos o Xambá, o Batuque, a Cabula, o Omolokô, o Culto aos Egunguns, a Quimbanda, o Queto, a Angola, o Djedje, o Nago Vodun.

Em São José dos Pinhais podemos encontrar cerca de 60 templos, casas, terreiros ou barracões de Umbanda, Candomblé e Omolokô.

Legado

O africano trouxe os seus saberes e conhecimentos de agricultura, tecnologia e ciência ao trabalho no Brasil. Esses saberes também estão entranhados na música, na culinária e na língua portuguesa aqui falada.

Ritmos como o lundu, deram origem a boa parte da música popular brasileira, do maxixe, passando pelo jongo e a congada, chegando ao maracatu, ao samba, ao choro e a bossa-nova.

A congada,ritmo é considerado um Patrimônio Cultural Imaterial Negro no Paraná, é permeada por lutas coreográficas, música percussiva, desfile encenado, animado por danças, ritmos e cantos. Muito presente na Lapa, é celebrada no dia 26 de dezembro, na festa de São Benedito.

Em São José dos Pinhais, há registros do fandango no bairro da Carioca. A população se reunia em casas e no local conhecido como Barroca Funda para tocar e dançar.

Instrumentos musicais afrobrasileiros como o berimbau, atabaque, agogô e reco-reco fazem o ritmo que acompanha a Capoeira – Patrimônio Imaterial da Humanidade – mistura de dança e arte marcial que surgiu no Brasil Colonial. Encontramos muitos grupos de Capoeira em São José dos Pinhais, o entre eles o do CECAB, do Mestre Kunta Kintê – Capoeira Angola, no Bairro Afonso Pena.

Na culinária brasileira, a influência africana está nos modos de preparo, na combinação dos temperos e nos ingredientes como azeite de dendê, leite de coco, quiabo, gengibre, pimenta malagueta, feijões diversos. Pratos afro-brasileiros como vatapá, o caruru, o acarajé, moquecas, angu, cuscuz, feijoada, canjica, são variações dos pratos originais da África, de Portugal e dos povos indígenas locais.  Muitas vezes o preparo dos alimentos está intimamente ligado ao culto aos Orixás das religiões de matriz africana.

O português falado no Brasil está recheado de palavras de origem africana, de línguas como fon, iorubá, quimbundo, quicongo, entre muitas outras. “Batucar”, “banguela”, “bengala”, “caçula”, “cachimbo”, “cafuné”, “carimbo”, “cochilar”, “dengo”, “moleque”, “quitanda”, “samba”, “xingar” são alguns dos exemplos de palavras de origem ou influência africana.

ONG’s e associações

– Respeito Não Tem Cor, ONG coordenada por Dirce Santos, tem como missão revolucionar a sociedade, extinguir o racismo através do conhecimento e da educação, praticando diversas ações sociais em periferias e comunidades carentes de São Jose dos Pinhais.

– 5ª Reunião do Afroempreendedorismo, na ACIAP, organizada pelo grupo Respeito não tem cor. 09/09/2019. Foto: João Damas.

CECAB – Centro de Estudos da Cultura Afro-Brasileira, sediado na Rua Almirante Alexandrino, 2479, Bairro Afonso Pena. Coordenado pelo Mestre Kunta Kinte, promove o ensino da Capoeira Angola, artes e cultura de matriz africana.

Fotos: Luzia Carreira Gonçalves

– CASCA – Casa Cultural Abaeté, sediada na Rua Sebastiana Laura de Souza, 81, Guatupê. Coordenada por João Damas e Marcia Chaves, tem o princípio de fomentar elementos e saberes da cultura popular brasileira através de encontros, aulas, oficinas,palestras e outras atividades.

– Usina de Percussão e Artes Carnavalescas, coordenada por Cleonice Santos, fomenta através da música e do ritmo, aliados a dança e o teatro, repertórios e experiências da cultura popular. Promove ensaios no Parque da Fonte, Comunidade São Judas, Centro POP entre outras localidades.