• A Memória Familiar São-joseense Através da Imagem

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A descoberta da fotografia data 1826, através de Joseph Nicéphore Niépce e Louis Jacques Mandé Daguerre, mas essas imagens irão se tornar acessíveis para a maior parte da população apenas a partir de 1860, incentivado pela indústria em potencial. Antes disso, apenas os membros da burguesia urbana, enriquecida pelas disputas coloniais, tinham acesso ao retrato fotográfico. Atualmente, a democratização atingiu tal nível que a todo momento estamos inseridos no universo das imagens – tanto que, mesmo sem procurar, dificilmente conseguimos passar um dia completo sem nos depararmos com imagens solicitando nossa atenção.

A  quantidade  de  elementos excluídos  de  uma  fotografia  (e  que  talvez  por  isso  possam  ser  esquecidos  mais facilmente)  é  muito maior do que  a dos  elementos  que  estão presentes na foto.  As imagens  fotográficas  são  seletivas  e  limitadas,  e  por  isso  trabalham  a  favor  do esquecimento tanto quanto trabalham pela memória. Assim, o  olhar  que  lançamos  ao  mundo,  filtrado pelas  lentes  da  câmera,  é  um  olhar  influenciado pelas nossas vivências, recortes e pelos propósitos e utilizações idealizados pelo fotógrafo. Esses processos, por sua vez, estão diretamente relacionados aos usos do passado, como as construções identitárias de determinados tipos de famílias – pertencentes a elite rural, a elite urbana, a classe trabalhadora, entre outros.

As imagens fotográficas, por sua vez, são caminhos para a lembrança, contando histórias através da nossa própria capacidade de elaborar narrativas. Assim, os retratos de família não são, necessariamente, apenas o registro da memória familiar – embora nos ajudem a contar as histórias das famílias. Esses retratos  apresentam configurações específicas, tendo em vista que são construções de representações que, por sua vez, carregam o passado e os caminhos percorridos, refletidos nos cenários, nos móveis, nas roupas, nas pessoas. Geralmente se encontram associados a sentimentos afetivos e a saudades do passado, buscando, além de registrar, estabelecer contato com outros tempos – um desejo de que se constitua um elo, no futuro, com determinados momentos do presente em questão.

Se considerarmos a fotografia um registro perfeitamente realista do mundo visível é porque desde sua origem lhe foram designados usos sociais considerados ‘realistas’ e ‘objetivos’. A aparência realista das fotografias induz o observador a vê-las como se fossem janelas e não imagens. No entanto, a fotografia não é neutra ou imparcial, ela é composta de escolhas, como o enquadramento e a distância do objeto determinados pelo fotógrafo, e as próprias características do aparelho que ajuda a produzir a imagem, como as distorções geradas por diferentes tipos de lentes e a quantidade limitada de cores captada pela câmera. Assim, as imagens fotográficas não nos mostram a realidade, mas uma idealização ou transformação dessa a partir da união entre câmera e fotógrafo.

Os retratos de família, por mais inocentes que pareçam, também carregam histórias e influências, nos levando a refletir sobre o que pode existir por trás dos registros. Nesse recorte, podemos observar o resultado de algumas das escolhas feitas tanto pelo fotógrafo quanto pelas pessoas registradas nestas fotografias. Essas escolhas, conscientes ou não, se fazem presentes principalmente no momento anterior ao clique, isto é, a preparação para a fotografia. Decisões como a escolha das roupas, limpas e alinhadas, a posição dos familiares, que centraliza a figura dos líderes ao mesmo tempo em que protege os mais novos à frente e a escolha do plano de fundo, muitas vezes casas e carros, representando as posses da família, são perceptíveis em muitos dos registros. Estas fotografias seguem um padrão, que parece representar não o que a família é, mas o que gostaria de ser.